segunda-feira, 11 de abril de 2016

Pai Heroi

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Texto por Dudu Guedes.

Talvez ele nem saiba, mas ha muito mais dele em mim do que a rasa visão dos olhos pode enxergar. 

Ele me mostrou as coisas grandiosas da vida, daquelas com cheiro de infância, que não precisam de luxo ou dinheiro. Lembro das vezes em que andávamos descalços na beira do mar ou que assistíamos partidas de futebol na areia com sabor de pipoca doce de carrocinha. Ele me ensinou a valorizar a simplicidade.

Quando saíamos para empinar pipa, certamente ele se divertia mais do que eu. Sem problemas, eu ficava admirando o quão alto ele conseguia subi-la. Certa vez, decidiu andar no meu velocípede em Teresópolis. Não deu certo, abri o berreiro e minha mãe veio me consolar. Tudo bem. Perdi um brinquedo mas ganhei outra coisa. Aprendi que ser criança não tem a ver com a nossa idade mas sim com o coração.

Quando eu tinha 16 anos, trabalhei junto com ele no escritório de contabilidade. Reconheço que decidi não seguir a profissão. Mas íamos juntos a igreja após o almoço para orar e agradecer em silêncio. Todos os dias. Nunca soube o que ele pedia, mas sem saber ele me ensinou a trabalhar a minha espiritualidade.

Ele era como um pai-heroi, parecia mesmo invencivel. Nao foi assim. A bebida o revelou humano, e mostrou que todos temos falhas. Qualquer superman também tem suas horas de clark kent. Mas isso não diminui o amor. Foi quando ele me ensinou como se faz um guerreiro. Com fe, forca e resiliencia, eh possível superar as adversidades, vencer a kriptonita e se tornar maior e mais forte. 

Aos 69 anos ele ainda sai para trabalhar todos os dias as 5:30 da manha e nunca vi ele perder a hora em um dia sequer. Enfrenta a subida das montanhas em cima da sua bicicleta com a energia e leveza de um menino. O esporte o livrou do vicio e passou a inspirar tantas outras geracoes. Na sua ultima prova de ironman, fui de moto do seu lado. Fiquei cansado e quase abandonei o percurso. Mas ele nao desistiu. Me pediu apenas uma camisa e 1 dorflex e continuou correndo. Completou com incriveis 12h:53 aos 60 anos de idade. 

Escrevia poesias de altíssima qualidade sob o codinome de Carlos Bardega. Me explicou que Bardega era a mistura de bar com adega, em referencia a época em que o vicio ainda o dominava. Sempre antes de entrar no carro, ele abre a porta do carona para você entrar. Faz isso sempre e para qualquer um. Ele me transmitiu o dom da gentileza.

Obrigado por me inspirar. Obrigado por fazer parte de mim e da minha jornada. Minha eterna gratidao pelo que sou e pelo que aprendi com vc. Meu pai, aquele que se confirmou heroi ao se revelar humano. Que eu ainda possa retribuir em vida tudo que recebi de vc. Amém.

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