quarta-feira, 3 de maio de 2017

Manifesto da Persona Digital



(Texto por Dudu Guedes)

Olá, bom dia. Sou a sua persona digital e preciso de alguns minutos para falarmos. Sim, sou a sua versão de você que habita a sua página no Facebook e gostaria de ter uma conversa franca agora. Pode não parecer a hora mais apropriada, mas estou muito desconfortável e não consigo mais adiar o assunto.

Infelizmente não sou o que você pensa de mim. Me perdoe, por favor. Acredite, tenho me esforçado para atingir as suas expectativas. Mas não consigo ser tudo isso que você fala de mim para os outros.

Não consigo mais quebrar recordes de corrida todos os dias. Preciso confessar que eu quase desisti na última prova. Não parei pois não queria te decepcionar, já que vc fez tanta propaganda de mim para seus amigos. Mas acredite, meus joelhos doem muito. E fique tranquilo pois eu não contei isso para ninguém. Tenho tentado manter a sua fama de mau. 

Sei o quanto tudo isso é importante para você. Seus amigos parecem gostar das minhas fotos que você publica no meu mural. Mas peço gentilmente que não tente me comparar a eles. Eles também não são exatamente como as postagens que aparecem por aqui. No nosso mundo, a gente também tem dor de barriga, acorda com cabelo em pé, bafo de onça e come pão "dormido" do dia anterior. Mas eu sei que falar sobre isso também não dá tanta audiência.

A verdade é que tenho me sentido muito cobrado por você. 

Não li nenhum livro nos últimos 2 anos e adoro assistir Big Brother, mas você quer que eu emita opinões como se fosse um cientista político. Não fiz nenhum curso de coach, mas você me considera o Dalai Lama do Facebook. Mal sei fritar um ovo, mas por vezes me sinto a versão paraguaia do batiste do cloude troigros com as suas falsas publicações de mim.

Sou alegre e gosto de estar rodeado dos amigos, mas também tenho meus momentos de tristeza e solidão. Sim, adoro comida japonesa, mas a maioria dos meus jantares é mesmo um queijo quente da padaria que você não tem coragem de postar. 

Amo meus filhos e cachorro, mas, muitos dias, minha casa parece mais um campo minado em que mal dá para entrar. Não concordo com a exposição que vc faz da nossa família, sem nem mesmo lhes dar o direito de escolha.

Sim, gosto de me sentir mais jovem, mas as minhas inúmeras fotos de perfil não revelam a beleza das rugas que o tempo me presenteou. 

Estou farto de tanto hashtag que não corresponde a minha essência. Lembro de quando você postou #amoanatureza, mas esqueceu de escrever #reclameipracaramba, #detestocaminharnatrilha e #temmuitomosquitoaqui.

Adoro viajar, mas passo mais tempo no waze tentando fugir do transito da marginal pinheiros do que gastando as milhas do meu cartão. Gostei de ver o nascer do sol naquele domingo, mas raramente troco o conforto da minha cama antes das 10 horas da manhã.

Me desculpe por trazer a verdade logo agora. Sei que vc achava que eu estava na minha melhor fase, mas não era bem assim. Não quero destruir seus sonhos nem tudo que os outros pensam de mim, mas também não posso mais alimentar esta fantasia. Quero mais verdade na nossa relação. Você me conhece bem e sabe quem eu realmente sou.

Cansei desse mundo do faz de conta. Sinto que deste jeito não poderemos mais continuar juntos, pois nos tornamos 2 pessoas muito diferentes. Nos perdemos em algum momento no vazio do cyberespaço virtual. Preciso buscar a verdade que existe em mim e resgatar a minha verdadeira identidade sem a preocupação constante de agradar aos outros. 

Cansei de ser a sua versão fraudulenta ou de servir como instrumento para o seu ego através de recordes de curtidas ou comentários na rede. Quero uma vida mais plena, simples e de verdade. Com menos holofote no eu e mais no nós.

A partir de amanhã, tudo será diferente. Entrei com um pedido de divorcio no tribunal do Facebook. Terei minha própria senha e serei responsável pelas minhas postagens. Eu vou escolher quem são os amigos da minha rede de contatos. Vc não achara mais a minha página, nem os meus comentários. Espero que você tenha boas lembranças de mim, mas especialmente que passe a amar quem você realmente é, valorizando sim as virtudes, mas gentilmente acolhendo os defeitos. Com a certeza de que evoluir é um processo contínuo e parte inerente da condição humana.

Assinado: Sua Página do Facebook

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Apelidos



(Texto por Dudu Guedes)

No escritório da construtora, João chega da agencia e encontra Marcelo e sua equipe de marketing.

- Olá pessoal, tudo bem? Então ... trouxemos aqui algumas propostas de nomes para avaliação de vcs. Usamos o nosso melhor time de criação da agência. Só pra alinhar, o briefing foi manter a discrição, mas também preservar a persona de marca de cada um. Usamos um conceito criativo baseado no humor, mas também temos um campanha alternativa na linha mais emocional e a ideia é ...

- Ok. Vamos lá, Joao, sem rodeios. Não temos muito tempo. O pessoal tá querendo o dinheiro. O que trouxe ai?

- Ok. Vamos a lista. Começando por Jose Chaves ... o codinome sera ... Maria!

- Mas ... Maria é nome de mulher, joao!!!

- Justamente ... isso é para disfarçar. É referência a Maria e José. 

- Porra joão, tá maluco. Isso vai dar muita confusão pro contas a pagar. Eles vão acabar depositando na conta da Dilma. Muda aí: Jose Chaves será chaveiro. Assim ninguém tera dúvida.

- Tá bom. Anotado. Vamos pro próximo: Sandro Mabel do PR-GO. O apelido será "Globo".  

- Globo, joão??

- Isso. Globo é um biscoito famoso no Rio, e biscoito é Mabel.

- Porra, Joao. Vc conhece o pessoal do financeiro? O perfil é mais operacional, tem que ir direto ao ponto. Vão acabar depositando dinheiro naquela emissora!!! Vai dar M! Anota ai, ao invés de Globo, coloca logo "Biscoito" em referencia a Mabel. Precisa ser mais simples!

- Tudo bem, Marcelo. Nossa agência é "customer driven", vc que manda! Ja alterei. Vamos pro outro: Robson Faria será "bonito". Esse ninguém vai ter duvida, não acha não?

- Tá me estranhando, Joao????? Na minha terra isso é desaforo!! Rapaz, se aquete! Coloca aí "bonitinho". Agora ... Coloca aí "cunhado" pro Inaldo Leitão! Vc já viu a irmã dele? 

- Ok. Vamos adiante ... José Roberto, ex-governador do DF, será "volei". 

- Esse tá muito fácil. Vcs nao entenderam nada do briefing heim! Assim vou abrir RFP pra trocar a agencia heim! 

- Nao faça isso nao, dotor ...

- Muda o Jose Roberto pra "parreira" pois o original vem de Carlos Alberto. Mais discreto!

- Ta bom, ok! Vamos pro Jarbas Vasconcelos do PMDB. Pensamos em Flamengo por causa do Vasconcelos.

- Joao, não dá pra misturar time de futebol, tem muito ladrão, muito cartola e vão acabar vindo aqui pedir dinheiro também ... Então anote aí: o Jarbas vai ser Viagra! 

- Mas aí ja é sacanagem!

- Sacanagem é o dinheiro que ele tá pedindo!

- Eu sei, mais aí o jurídico não vai aprovar! Pode dar procon, conar, processo por calúnia e difamação ...

- Rapaz, a gente coloca um texto legal com letra pequena e ninguém vai reparar.

- Tudo bem. Vc é o chefe! Ja anotei as alterações. Vou providenciar as mudanças.

- Ok, nao demore.

- Ah chefe, ja ia esquecendo ... E o joao santanna?

- Mas ... joao santanna é vc!

- Sim. É pra pagar a hora extra da criação no fim de semana.

- Anote ai entao.

- Diga!

- Nuulo!!!

- Nulo? Esse é meu apelido?

- Esse é o dinheiro que vc vai ganhar por esse job. Vamos ver se na lista do natal vcs conseguirão surpreender. 

- Tudo bem. Até mais.

- Vai embora logo ! Ah e nao esquece de deletar os nomes do computador heim!

sábado, 1 de abril de 2017

Auto-Promocao


(Texto por Dudu Guedes)


Confesso que fico um pouco assustado com o uso das mídias sociais. Reconheço seu caráter como ferramenta de transformação e evolução social. Mas ao mesmo tempo me impressiona a capacidade de auto-promoção de muitas pessoas. Corredores novatos que se tornam atletas olímpicos, gurus espirituais, cientistas políticos etc. 

Ora, importante deixar claro: não tem nada demais divulgar conquistas, compartilhar alegria ou dividir opiniões. Ajuda a transformar outras vidas e também alimenta nossa auto-estima. Também pode ser uma eficiente ferramenta de divulgacao pessoal ou profissional. O problema é quando o facebook vira um outdoor virtual com o objetivo principal de alimentar a vaidade. Postagens de autopromoção que buscam recordes de curtidas e comentários na rede para satisfazer o próprio ego. Não basta nos comparar a vida dos outros, mas também precisamos diariamente melhorar a imagem da própria persona digital, como se existissem 2 vidas independentes.

O exercício é simples. Se você pudesse colocar um anúncio sobre você todos os dias em um outdoor no corredor da marginal pinheiros ou na contracapa da revista Veja, como seria? Cuidado para não passar do ponto e errar a mão. Do contrário, pode estar alimentando o mundo da fantasia virtual e esquecendo da vida real, onde todo mundo acorda com mau hálito e também tem dor de barriga. 

Precisamos reconhecer o lado bom. Problemas com empresas não passam mais impunes. Reclamações e hashtags ajudam a resolver o problema e principalmente criam uma relação de poder mais equilibrada entre as partes. Se o governo é corrupto, terá que se explicar no facebook. Se a empresa não cumpre o prometido, terá uma legião de desaprovações. O policial que pede propina será banido da corporação. Protestar e chamar a atenção está muito mais fácil. Se por um lado, as mídias sociais possibilitaram dar poder individual a cada um de nós, precisamos ter cuidado e bom senso para usá-las.

Com o recurso de video ao vivo descobri uma série de apresentadores até então anônimos na minha rede de contatos. Não acho que isto seja necessariamente um problema. Pelo contrário, revelar novos talentos é muito positivo. Entretanto, creio que por vezes falta um pouco de discernimento na curadoria ou edição de imagens. Não se trata de rótulos e todos temos temos o direito de nos expressar livremente. Também defendo a espontaneidade e simplicidade das nossas ações. A questão é o quanto você está disposto a abrir a porta da sua privacidade para o mundo e deixar qualquer um entrar em sua intimidade. Se tiver estômago, siga em frente. Do contrário, sugiro que seja mais cauteloso em suas publicações na rede para reduzir ansiedade ou evitar a exposição da sua família. E cuidado para não se perder no ciberespaço do vazio e da ilusão.

Publique suas fotos com bom senso. Valorize a vida real. Olhe no olho. Escute a sua voz enquanto fala. Ria de gargalhar alto com a vibração das cordas vocais e não com uma sequência de kkk com a boca fechada. Dê um abraço apertado nos seus especiais, daqueles de sentir como se vc tivesse 2 corações. E siga em frente.

Em tempo: este texto não tem o propósito de crítica dirigida a ninguém. Também não sou contra o uso das mídias sociais, tampouco tenho vocação para guru espiritual. Cada um tem direito de escolher o que é melhor para suas vidas. Foi apenas uma reflexão que decidi compartilhar.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Carne e Osso



(Texto por Dudu Guedes)

Cada vez mais admiro pessoas simples, de carne e osso. Que não sabem falar ingles mas falam a língua do coração. 

Que preferem a união ao redor de um bom cachorro quente com coca-cola, do que a fartura sofisticada de uma mesa vazia.

Que nem sempre tem curso superior, pos-graduação ou mestrado, mas são verdadeiros PHDs na escola da vida. 

Nunca entendi por que deveríamos chamar advogado de doutor, nem juiz de excelência ou meritíssimo. Meritíssimo para mim é pai e mãe, esses sim tem a patente mais alta da hierarquia e merecem nosso respeito incondicional, por vezes escasso em nossas prateleiras. E isso não significa concordar com todas suas atitudes mas entender que eles fizeram e fazem o melhor dentro das suas possibilidades e historia de vida.

Estar no hospital é um exercício de humildade, seja para o paciente ou mesmo para os acompanhantes. Na verdade, o nome não é por acaso. É preciso paciência, para toda a família.

O hospital não era dos melhores. Construcao antiga, janelas grandes, pé direito alto, ar condicionado barulhento. Confesso que a primeira impressao foi bem ruim. Cheguei com um certo desconforto de quem gostaria de ter oferecido algo melhor a meu pai em sua internação. Minha irma sabiamente tentou me acalmar e me fuzilou com a frase: "aonde está ruim o hospital, dudu?"

Ela tinha razão. Como tudo na vida, não podemos avaliar apenas a casca, devemos olhar além, por detrás das cortinas do sutil. O andar não estava cheio, as enfermeiras eram atenciosas e estavam sempre disponíveis.

A madrugada parecia a rotina de um barco. Cochilos de no máximo 40 minutos interrompidos para trocar a irrigacao da sonda. Tentei me acomodar em vão no sofá duro. 

A enfermeira do segundo turno entrou pelo quarto. Monique era seu nome. "Você lembra um ator de Hollywood..." soltou ela sem titubear. Ele abriu um sorriso, e imediatamente ela continuou: "... aquele que fez o 007". Bingo! Era o que ele precisava ouvir. Nao parecia uma cantada, mas como enfermeira ela tirou nota 11 com louvor. 

Admiro pessoas de alma leve, dessas que parecem caminhar flutuando sobre os próprios pés. Monique sabia que sua responsabilidade era muito maior do que apenas trocar o soro mas principalmente acolher quem estava ali. Fazê-lo se sentir mais especial mesmo diante de uma situação que joga no lixo a vaidade e coloca o paciente no limite da auto-estima. 

Num hospital, não importa o seu carro, endereço, cargo, conta bancária nem escolaridade. Você estará igual a qualquer um: camisola branca, bunda ventilando pra fora, bafo de onça e cabelo despenteado. Sim, sua aparência estará horrível, uma mistura de Fred Krueger com Chewbacca. Mas isso não importa. O que você mais quer é sair correndo dali, olhar novamente o azul do céu e como diz a música "colocar a alma pra secar em Ipanema".Depois de 3 meses, finalmente meu pai retirou a sonda. 

A gente aprende com aquilo que nos envolve e inspira. Meu muito obrigado a meu pai, minha irma e Monique que mesmo sem saber ajudaram a transformar o meu dia com um significado muito maior do que minha lente seria capaz de registrar.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Do Outro Lado



Texto por Dudu Guedes

A vida é como um sopro, dizia o poeta. Um sopro que pode ser longo ou curto. E isso não depende de quantos dias durou a sua vida, mas sim de quanta vida despejou nos seus dias.

Vovó não conseguiu andar até o local do sepultamento do seu irmão e decidiu esperar em um banquinho no meio do caminho. Tudo bem, não importava. Ali, era apenas o ritual de despedida da matéria. A presença de seu irmão estaria imortalizada para sempre nas nossas memórias e corações. 

Muita gente da família reunida por ali. Confesso que senti uma certa incomoda alegria ao reencontrar pessoas especiais que a vida distanciou, e que ironicamente a morte novamente aproximava de alguma forma. Definitivamente, ali não era o melhor lugar. 

Mas o que impressionava não era o fato em si, afinal de contas, tio David era uma homem centenário e forte. O que impressionava ali era a reflexão de que ao nascer, entramos todos em uma fila invisível para o outro lado. Recebemos uma senha sem que sejamos informados sobre o numero exato do nosso bilhete. Poderíamos até tentar estimar, mas seria inútil e em vão. É a única fila em que ninguém quer chegar ao destino final. Quanto mais cheia, melhor. Você não sabe exatamente quem está na sua frente ou atrás. Não importa. E não adianta querer dar a vez ou voltar para o final. A sua senha é pessoal, indecifrável e intransferível. Melhor guardar o bilhete e esquece-lo. Quando o seu número for premiado, de alguma forma, você saberá.

Do outro lado, Rafael e sua esposa recebiam os parabéns. Ela estava grávida e servia como veiculo para o milagre da renovação. Vida e a morte presentes tão perto, ali no mesmo lugar. Ao mesmo lado, a despedida para o novo e desconhecido, em formas diferentes. Do outro, o inicio de uma jornada na vida terrena, palco de sonhos, medo, alegria e frustração. A ambivalência do início e do fim, mas que de certa forma, também é fim e recomeço. O dia de finados não deveria ser usado com o propósito de homenagear os mortos, mas sim de celebrar a vida como a estranha antítese do velho e novo 

Visitamos o túmulo do vovô. Delicadamente, colocamos uma pedrinha em cima do caixão, como se pudéssemos nos aproximar dele. Não precisava. Ele ja estava por perto. Do lado de dentro. Em nossos corações. No caminho de volta, eu e meu primo lembramos de historias da nossa infância e de como sempre fomos crianças felizes por aqui. Sim, vovô também estava por ali se comunicando conosco de alguma forma.

Como diria Mario Quintana, "o problema não é morrer, mas sim deixar de viver". Por isso, levantemos do sofá da vida como meros expectadores. Esvazie os medos, mágoas e frustrações. Encha o peito com amor e alegria e saboreie o dia na sua plenitude, com todas as possibilidades e dores que o mundo te oferece. Coloque as lentes de quem está fazendo uma belíssima viagem de umas longas férias, onde nem tudo sairá como planejado mas ainda assim pode ser maravilhoso. Reinvente-se sempre e permita transformar tudo o que parece pesado demais. Mas o mais importante: ame, perdoe, viva e divirta-se ao longo dessa estrada. Quando chegar a sua hora de descobrir o que existe do outro lado, de alguma forma você também estará imortalizado por aqui.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Carta aos Amigos



Hoje é um dia diferente. Sempre imaginei como seria a minha saída da Oi e confesso que nunca esperei grandes emoções. Imaginava como seria sair pela catraca e olhar para trás. Me julgava forte e um pouco superior a isto tudo. De certa forma, percebo minha arrogância de adulto, daquelas que, na maioria das vezes, só reconhecemos no vazio. Hoje foi assim. 

Não serei hipócrita de dizer que sentirei falta de alguns projetos que parecem sem sentido ou algumas reuniões intermináveis de acareação de números. Como uma casa desarrumada que incomoda a qualquer um que chega, mas cujos moradores conseguem se encontrar. As vezes, pode ser difícil encontrar o sal ou açúcar, mas no fim do dia, ninguém fica sem jantar. Uma bagunça organizada ou uma organização desarrumada. Não importa. Como toda família, nenhuma é perfeita. Podemos até comentar os próprios deslizes, mas ai de quem ousar de fora falar mal da nossa família. A Oi é assim. Tem mesmo uma lógica própria que inexplicavelmente parece funcionar. Certamente, mérito de muito esforço individual que sobressai no coletivo. Uma luta da competência diária daqueles que escolhem todos os dias fazer diferente. Fácil é navegar em águas calmas. Enfrentar a turbulência de mares revolto não é para qualquer um, precisa mesmo de muita transpiração para não nausear e manter a proa no rumo. Esta sim é tarefa para grandes marinheiros. Admiro a resiliência daqueles que fazem parte dessa embarcação. E agradeço a todo o convívio, paciência e aprendizado. 

Sim, estou feliz e empolgado com a oportunidade da mudança e a possibilidade de escrever uma nova história. Assusta e ao mesmo tempo inspira. Difícil traduzir em palavras. Mas o que hoje é inegável é mesmo a falta que cada um fará em minha rotina. Um sorriso, piada no meio da tarde, almoço descontraído ou mesmo aqueles mais rápidos no Da Silva, gaveta de lanche coletivo, imitações de fazer inveja em qualquer stand-up comedy, músicas que eu jamais teria ouvido no meu rádio (aqui vale citar o clássico baile de favela), momentos de dar ou receber conselhos, discussões acaloradas, discussões intermináveis, confraternizações, conversa ao pé de ouvido no corredor, situações inusitadas com direito a uma queda porque o "pé dormiu", novos sotaques, novas expressões que incorporei em meu vocabulário e eu nem sabia que poderiam existir no mundo dos negócios (destaques para coreografia e peça orçamentária), alegria e tristeza compartilhadas, gente que casa, gente que se separa, filhos que crescem, filhos que estão por vir, ou um simples bom dia as vezes doce, as vezes azedo. 

Este é o grande mistério da vida. Simplesmente aceitar que as pessoas se conectam por algum propósito muito maior do que nossa rasa consciência é capaz de entender. Algumas pessoas entram e saem da nossa vida, outras permanecem, outras vão e voltam. Mas não importa. É tolice tentar controlar ou mesmo entender. Mesmo quando acreditamos que somos pilotos absolutos do nosso destino, a vida pode dar uma rasteira, mas sempre mostrará novos caminhos e que no final somos todos passageiros de uma grande viagem. 

Qualquer marinheiro precisa da sabedoria de deixar fluir, perceber a hora de atracar ou partir. Embora clichê, um barco jamais será o mesmo, nem quando chega, nem quando sai. De alguma forma, as pessoas permanecerão conosco por aquilo que elas deixam na gente. Se você está recebendo esta carta, é porque de alguma forma se eternizou em mim. Espero que eu possa ter contribuído com alguma marca positiva, assim como eu recebi de vc. E me perdoe por eventuais ausências ou exageros que eu possa ter cometido, mas falhar também é parte inerente da nossa condição humana.

Por fim, só posso dizer obrigado. Obrigado por ter feito parte da minha jornada e tornado esta viagem mais divertida. Quem sabe não nos reencontraremos na próxima estação. Minha eterna gratidão em forma de chocolate. 

Com carinho, Edu Guedes.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Pai Heroi


Texto por Dudu Guedes.

Talvez ele nem saiba, mas ha muito mais dele em mim do que a rasa visão dos olhos pode enxergar. 

Ele me mostrou as coisas grandiosas da vida, daquelas com cheiro de infância, que não precisam de luxo ou dinheiro. Lembro das vezes em que andávamos descalços na beira do mar ou que assistíamos partidas de futebol na areia com sabor de pipoca doce de carrocinha. Ele me ensinou a valorizar a simplicidade.

Quando saíamos para empinar pipa, certamente ele se divertia mais do que eu. Sem problemas, eu ficava admirando o quão alto ele conseguia subi-la. Certa vez, decidiu andar no meu velocípede em Teresópolis. Não deu certo, abri o berreiro e minha mãe veio me consolar. Tudo bem. Perdi um brinquedo mas ganhei outra coisa. Aprendi que ser criança não tem a ver com a nossa idade mas sim com o coração.

Quando eu tinha 16 anos, trabalhei junto com ele no escritório de contabilidade. Reconheço que decidi não seguir a profissão. Mas íamos juntos a igreja após o almoço para orar e agradecer em silêncio. Todos os dias. Nunca soube o que ele pedia, mas sem saber ele me ensinou a trabalhar a minha espiritualidade.

Ele era como um pai-heroi, parecia mesmo invencivel. Nao foi assim. A bebida o revelou humano, e mostrou que todos temos falhas. Qualquer superman também tem suas horas de clark kent. Mas isso não diminui o amor. Foi quando ele me ensinou como se faz um guerreiro. Com fe, forca e resiliencia, eh possível superar as adversidades, vencer a kriptonita e se tornar maior e mais forte. 

Aos 69 anos ele ainda sai para trabalhar todos os dias as 5:30 da manha e nunca vi ele perder a hora em um dia sequer. Enfrenta a subida das montanhas em cima da sua bicicleta com a energia e leveza de um menino. O esporte o livrou do vicio e passou a inspirar tantas outras geracoes. Na sua ultima prova de ironman, fui de moto do seu lado. Fiquei cansado e quase abandonei o percurso. Mas ele nao desistiu. Me pediu apenas uma camisa e 1 dorflex e continuou correndo. Completou com incriveis 12h:53 aos 60 anos de idade. 

Escrevia poesias de altíssima qualidade sob o codinome de Carlos Bardega. Me explicou que Bardega era a mistura de bar com adega, em referencia a época em que o vicio ainda o dominava. Sempre antes de entrar no carro, ele abre a porta do carona para você entrar. Faz isso sempre e para qualquer um. Ele me transmitiu o dom da gentileza.

Obrigado por me inspirar. Obrigado por fazer parte de mim e da minha jornada. Minha eterna gratidao pelo que sou e pelo que aprendi com vc. Meu pai, aquele que se confirmou heroi ao se revelar humano. Que eu ainda possa retribuir em vida tudo que recebi de vc. Amém.