segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Feliz Dia Novo



Texto por Dudu Guedes

5h da manha. O primeiro passarinho se levanta com o ceu ainda escuro. Ventania e um pouco de frio, realmente nao parece novembro no Rio de Janeiro. A sinfonia comeca. Mais 3 passarinhos fazendo coro. O primeiro queimou a largada e disparou a cantoria antes do horario habitual. O despertador nem tocou e eles ja levantaram voo.

Impossivel voar e nao cantar, pensei. Como ja dizia a letra, "o ceu de Icaro tem mais poesia do que o de Galileu". Se voce pode tocar as nuvens, por que simplesmente olhar de longe ? Deixemos a luneta de Galileu de lado, e ganhemos asas como o mitologico menino Icaro. Eh melhor voar juntos, ainda que longe do edredon pareca frio.

Abro a varanda e vejo a noite querendo virar dia. Uma luta diaria que mais parece uma crise de identidade. A noite resiste aos primeiros raios de sol e muda de cor. O escuro vira cinza, como um camaleao que tenta fugir da sua presa. Camuflagem quase perfeita. O sol tenta aparecer, mas as nuvens parecem ajudar a noite. Duelo de titas, que nao se ve nem no Premiere Combate.

La vem o sol, desta vez imponente, levanta-se com a forca de um vencedor e reina absoluto sobre a noite. O ceu mesmo nublado ganha cor e nasce um novo dia. Eh o milagre da renovacao. Por que esperar 365 dias para renovar as energias ?

Eh um grande privilegio levantar cedo com os passarinhos e assistir este espetaculo que eh de graca e nunca sai de cartaz. Deveriamos estourar uma champagne todo dia as 5:40 da manha. Tudo bem, custa caro. Mas se nao podemos reunir 1 milhao de pessoas em copacabana diariamente, que pelo menos dentro de cada familia, possamos brindar um novo dia. Seja com cafe, leite ou suco. Cada um da sua maneira, mas todos juntos e conectados. Feliz dia novo. Hoje, amanha e sempre.

domingo, 13 de novembro de 2011

Agua Molhada



"Caiu agua molhada", disse na praia o menininho de 4 anos que passava pela minha frente. De inicio, achei graca e no minimo curioso. Fantasia de crianca, pensei. Depois de um tempo, a expressao tomou nova forma e parecia fazer todo o sentido. Mensagem forte carregada de muita verdade que so poderia vir direto do coracao puro de uma crianca, sem escala nem conexao.

Quantas vezes, temos nossas ideias censuradas com a falsa acusacao de "isto eh redundante". Ainda criancas, no colegio, aprendemos que pleonasmo eh um vicio ou figura de linguagem. Vicio pra mim eh escrever sem liberdade criativa, como um computador programado que conhece bem as nocoes de gramatica mas que passa longe da imaginacao de um artista. Ora, nao sou contra o bom portugues, mas creio que as instituicoes atuais (na sua maioria) transmitem muita informacao, mas poucas traduzem conhecimento e quase nenhuma transforma em sabedoria.

Esta na hora de rever a boa educacao. Seja dentro ou fora de casa, dentro ou fora das salas de aula. Reescrever os contos de fada com historias mais atuais e criar pessoas pensantes. Vivemos na era da informacao. Qualquer coisa esta acessivel na internet e o conhecimento eh fragil como uma bola de arvore de natal. Tudo se transforma. A verdade de hoje nao eh a mesma de amanha, nem a de ontem. Ja se foi o tempo de pendurar diploma na parede. Minhas palavras nao sao contra o ensino, mas a favor da educacao. Defendo o estudo dinamico, coletivo, que integra, faz pensar e sentir.

Deveriamos ensinar nossas criancas a lidar com emocoes. As acoes nada mais sao do que o equilibrio entre razao e emocao. No ocidente chorar eh quase um ato ilicito dentro das familias. Claro que sorrir eh muito melhor. Mas nao deveriamos reprimir as emocoes negativas e sim lidar com elas com a naturalidade de quem sabe que faz parte da vida. So eh possivel deixar ir embora, o que permitimos chegar. Um barco que nunca atracou jamais podera partir. Reprimir a tristeza eh como tapar o sol com uma peneira. Como cultivar uma ferida que jamais cicatriza e criar um cancer que nao precisaria nascer. Que seja possivel chorar e viver a tristeza como uma crianca que prende o dedo na porta. Tempo suficiente para extravasar a dor e pegar o gelo na geladeira. Doi, mas passa rapido porque o choro nao foi contido.

Defendo sim o pleonasmo. O que chamam de redundancia, eu prefiro classificar de sabedoria. Deveriamos relativizar a informacao, de acordo com os olhos do observador. Afinal 10 dolares pode ser muito ou pouco dependendo de onde vc mora. Um carro em movimento pode tambem estar parado se vc estiver dentro dele. Na febre, sentimos frio mesmo no calor. Experimente uma queda numa pista de snowboard e descobrira que gelo tambem queima tanto como um bocal de fogao. Um casal que se ama tem a nocao exata de que a distancia nao afasta, mas aproxima. Agua de chuva pode molhar, mas nao se vc estiver dentro do carro de vidros fechados.

Que me perdoem o Sr. Aurelio e derivacoes, mas nem todo mar eh salgado, nem todo suco eh da fruta e nem todo beijo eh de boca. Nem tudo que sobe eh pra cima e nem tudo que desce eh pra baixo. Nem tudo que esta longe, esta distante. Nem toda metade eh igual. E nem toda agua eh molhada.

(Em tempo: olhe para a foto e veja qual dos tres personagens classificaria a chuva como "agua molhada": a crianca, o homem ou o fotografo dentro do carro ?).

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Maquina do Tempo



Engana-se quem acha que elas nao existem ou sao apenas enredo de filme de ficcao. Posso dizer que eu encontrei minha maquina do tempo. E foi por acaso, sem procurar, esbarrei nela em Salvador.

Depois de 4 trocas de hotel em apenas dois dias, fui transferido para um outro na barra. Para quem conhece Salvador, sabera que o local eh bem popular, como se eu estivesse hospedado na lapa no rio de janeiro (eu acho). Sol barra era o nome do novo hotel (novo pra mim). Nao me soou estranho, mas confesso que parecia um nome bem comum.

No inicio, fiquei incomodado com os contra-tempos gerados pela agencia de turismo que cuida dos agendamentos da empresa. Foram alguns erros em serie que me fizeram quase uma peregrinacao de hotel para hotel.

Tudo bem, meu rei, vc esta na Bahia, sorria. Mas as vezes eh dificil relaxar. Principalmente quando da tudo errado, e vc esta cansando de uma viagem de mais de 4 horas se somarmos os atrasos. Saio do trabalho e procuro um taxi. Ponto vazio e pra variar chuva. Chuva na Bahia ha 3 dias e quase em pleno verao realmente nao parece boa sorte.

Na minha frente, o cheiro de acaraje e o sorriso da baiana vestida em trajes tipicos soam como um convite a usufruir daquele momento. Saio debaixo da marquise e me permito sentir a chuva. Nada mal. Molhar-se na chuva da Bahia eh como banhar-se com sabonete de sal grosso, imaginei. Lava a alma. Ou no minimo, molha a roupa.

Entro no taxi. Primeiro destino eh recuperar minha bagagem no ultimo hotel. O taxista nao sabe o caminho. Tudo bem, me refresquei na chuva baiana e os orixas vao me guiar. Sera ? 5 minutos e nada. Desco do taxi e apanho outro. Este conhecia o caminho. Malas recuperadas, sigo para o outro hotel. Sol Barra, la vou eu. Apesar de bem localizado, nao era dos mais pertos do trabalho. "Ah, eh la no farol", disse o taxista. De inicio achei que ele estivesse cantando uma musica de axe, depois entendi que se referia ao farol da barra. Mais um pouco e era capaz de eu encontrar a famosa Mila das cancoes de carnaval. Ok, sem devaneios, seguimos em frente.

Finalmente chega. Sol barra, o letreiro e desenho de um sol na fachada pareciam familiares. Olho pra dentro e confirmo. Bingo. Era o hotel que eu estivera em 1987 com meus pais e minhas irmas. Tinha apenas 10 anos, mas eh incrivel como parecia um registro de ontem guardado recente em minha memoria. O elevador no meio, na esquerda uma sala de TV e a piscina, na direita o restaurante. A chegada em uma rotatoria, margeando um jardim. Na frente, uma pracinha com uma drogaria e umas lojas de artesanato.

Entro no quarto e lembro de um frango de padaria que almocamos na ocasiao. Incrivel. Parece que nada mudou. Com excecao dos 2 computadores para hospedes na recepcao. Naquela epoca, nao existia internet, nem se sonhava com ipad. Bom, se considerarmos que nao existe wifi nos quartos, ate que realmente nao mudou quase nada.

Desco para dar uma volta e comer alguma coisa. Entro num restaurante a beira mar, bem simples. Eh isso que eu quero. Gente de carne e osso. "Tudo bem ?" , pergunta o garcom. "Tudo otimo", respondo, sem ele saber que eu me teletransportara para la. Peguei minha maquina do tempo e viajei 24 anos. Me sentia como o Macfly no De Volta para o Futuro.

Ao redor, chega um homem rastafari. Nada contra a tribo, mas esse ai nao estava nada puro. O gerente do restaurante afasta o sujeito. Engracado como em viagens temos olhos de aprendizes e somos muito mais tolerantes ao ambiente. Talvez porque nos colocamos na posicao de observadores. Ora, como se no dia a dia tambem nao fossemos mero viajantes desta nave-mae. Obrigado Deus por me permitir enxergar mais este aprendizado.

A comida felizmente demora. Tempo suficiente para eu apreciar a boa coletanea de musicas que tocava. "E meu coracao embora tente fazer mil viagens, fica batendo parado naquela estacao". Verdade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre Patuás e Orixás


Texto por Dudu Guedes

Dia de finados. Seria diferente se não chovesse. Pelo visto, São Pedro é mesmo rigoroso com a data. Mesmo em Salvador, terra do axé e dos orixás, ele não deu trégua.

No pelourinho, procurei abrigo em uma loja enquanto um homem de uns quase 60 anos retirava apressado os quadros expostos na janela. Big era seu apelido, não entendi ao certo o porquê. Ele era baixo e magro, mas talvez fosse a sua grandeza de espiríto. A chuva aumentava. Depois de uns 15 minutos, ele resolveu quebrar o gelo e disse: "ei rapaz, venha cá, vc não quer me perguntar alguma coisa ?" Apenas elogiei os quadros e lhe sorri.

Em particular, dois deles me chamaram a atenção, pela pintura em perspectiva e efeito de luz, além do detalhe e sofisticação dos traços. Parecia mais uma foto artística do que uma pintura. Foi só o início de uma prosa boa e descontraída. Uma aula de cultura e história ao ar livre. Big mostrou fotos de personalidades ao seu lado, um autógrafo do Michael Jackson e contou varios "causos". Disse que assistiu um "woodstock" dos negros que eu nem sabia que tinha existido.

Se os paulistas usam "então" para pontuar uma frase e os cariocas falam "olha só", na Bahia é diferente: aqui se diz "venha cá, venha". Funciona como uma interjeição de aproximação, a expressão máxima que traduz toda a hospitalidade do baiano. Um povo porreta, simples e que olha no olho quando fala. Na Bahia, parece que o relógio parou. Não pela suposta e falsa idéia de lentidão do baiano, mas pelo clima de poesia no ar. Parece que a todo momento iremos encontrar Jorge Amado andando por aí ou Dorival Caymme cantando "saudade de itapuã". Quem dera e fosse possível.

Existe uma injusta associação de preguiça a um povo realmente trabalhador. Sim, gente que rala tanto ou mais do que os aristocratas de São Paulo mas que ao mesmo tempo sabe sorrir, viver a vida e ainda encontra tempo para dizer um bom dia. Daqueles "bom dia" genuínos que vêm de dentro pra fora, como num vôo direto do coração para os ouvidos, sem conexão ou escala.

Em outra loja, comprei uma camisa de São Jorge e ganhei uma fita de Senhor do Bonfim, além de um sabonete de sal grosso e um patuá. Na Bahia, orixá é coisa séria. Na despedida, aqui as pessoas não te falam "obrigado e volte sempre", mas te desejam "muito axé". Não existe uma única palavra que traduza esta expressão, mas certamente é uma mistura de "proteção, boas energias, saúde, amor, paz e alegria". É como o nirvana baiano, o ápice da plenitudade da realização e do bem-viver. O axé está para a Bahia assim como o aloha esta para o Havaí.

E para fechar minha experiência baiana, ao entrar no taxi, fui logo advertido pelo motorista: "atenção, aqui é o carro da alegria". Sacou um violão e começou a tocar "metamorfose ambulante" enquanto dirigia ... Ele disse que isso alegrava o dia dele e dos passageiros. Verdade. No mínimo curioso e inusitado.

Eu entrei na loja para comprar um quadro, acabei reconhecendo um novo amigo e levei junto sua energia boa. A Bahia é assim mesmo: internacional, patrimônio histórico e cultural da humanidade e deve ser muito respeitada ! E é bom nao duvidar. Axé.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Anjos na Janela




Fotos e Texto por Dudu Guedes

Ontem tinha um anjo na minha janela.

Primeiro ele veio fantasiado de passarinho. Sentou na varanda e cantou pra mim. Depois veio na forma de um sopro de vento e dancou junto com as arvores. Ate que finalmente se transformou no sorriso de um velhinho que gentilmente podava as arvores e me disse: bom dia. Brincalhao, o anjo virou chuva e passou a molhar os meus cabelos como uma crianca que faz arte. E por fim, voltou a ser estrela para iluminar a cidade.

As vezes, gastamos fortuna procurando respostas em salas fechadas de um consultorio de psicanalise. Mas certas coisas nao tem a ver com razao, somente com o sentir.

Que sejamos sabios para perceber os sinais do universo e sensiveis o suficiente para nos conectarmos com nossos anjos na janela. Na duvida, eh melhor deixar a cortina aberta. E acreditar.

Bicuspide e Tricuspide


Foto e texto por Dudu Guedes

Pode ser um sintoma dos tempos, mas creio que atualmente as pessoas sofrem mais por amor. Ou talvez pela falta dele. Vivemos uma epoca de relacionamentos liquidos, que se desfazem no calor ou congelam no frio. Tudo eh instantaneo, parece que eh facil casar e mais facil ainda separar. Eh o reino do egoismo e da pouca ou nenhuma tolerancia ao problema, seja alheio ou mutuo. Confesso que assusta.

Tenho saudade de uma epoca que nao vivi. De casais de carne e osso, daqueles que se conheceram no colegio ou num baile de formatura. Casais apaixonados que o tempo preservou. Casais de verdade, que sabem enxergar beleza mesmo no caos. Certa vez ouvi que o melhor presente que um pai poderia dar ao filho era de amar sua mae. Absoluta verdade. Mesmo que seja amor de amigo e pai. Como ja dizia a musica: um vendedor de flores ensinar seus filhos a escolher seus amores. Frase forte capaz de virar roteiro de filme em cartaz na propria imaginacao.

Dizem que o tempo ou a distancia faz ao amor o que o vento faz ao fogo: apaga os menores e inflama os maiores. Mas ao contrario, hoje vivemos a era virtual, de promessas vazias. No facebook, nao existem problemas nem tristeza. Todos tem inumeros amigos, estao felizes, equilibrados e bem. Muito bem, diga-se de passagem. Fabrica de ilusoes. Nos enganamos achando que nossa vida eh um big brother virtual. Na vida real, nao existe pedro bial nem paredao. Existe uma consciencia que tentamos calar com posts de uma falsa e barata ideologia.

De que serve gritar ao mundo que esta tudo bem quando o espelho reflete uma realidade contraria ? Talvez seja o desespero incontrolavel de se convencer ... Mas o convencimento nao vem de fora, e sim de dentro. Cresce como uma planta que precisa criar raiz dentro da terra antes de exibir suas flores para o mundo. Como poderia exibir frutos que nunca estarao maduros ?

Assim estamos vivendo. Nao eh mais o mundo do ser e nem do ter. O que vale eh parecer. Se nao esta feliz no casamento, o importante eh tirar a foto e estampar o sorriso para os amigos. Para crer na propria mentira, basta fazer os outros acreditarem. Facebook virou a maior das propagandas pessoais, moderno outdoor gratuito e individual. Eu nao aprovo. Ja dizia o sabio poeta: eh melhor uma surra da sinceridade do que um abraco da falsidade.

Esqueceram de nos ensinar que exibir as fraquezas eh sinal de fortaleza. Admiro quem reconhece suas fragilidades. Sao pessoas donas de sua propria historia que entendem e aceitam que a vida pode ter paginas rasuradas, mas nunca arrancadas.

Alguem ja disse que somos o que sentimos e nao o que pensamos. Por isso, eh tao importante cuidarmos das emocoes e da qualidade de nossos pensamentos. As vezes o sofrimento nasce do descompasso entre o sentir e o pensar. Em algumas ocasioes, existe ainda um terceiro elemento, o agir. Quando nenhum desses se entende (sentir, pensar e agir), eh mesmo melhor nem colocar o time em campo. Por isso devemos zelar pela coerencia e o sincronismo destes movimentos.

O coracao tem mesmo batidas complexas e as vezes desajustadas. E desta vez nao estou falando metaforicamente, me refiro aquele musculo capaz de irrigar as celulas do corpo, dos pes a cabeca. Sua engrenagem complexa depende de um simples dinamismo das valvulas tecnicamente batizadas de bicuspide e tricuspide. Para abrir uma delas, a outra precisa se fechar, permitindo o perfeito mecanismo de irrigacao. Se isto nao acontece, o sistema fica desajustado e as celulas do corpo deixam de receber seu alimento vital. Se persistir por alguns minutos, sera fatal.

A natureza nos ensina a respeitar os ciclos, como um farol que so pode ser avancado na luz verde. Que sejamos mais generosos com as valvulas do nosso coracao, e facamos dele cumplice dos nossos pensamentos e aliados das nossas acoes. E assim seja.

domingo, 30 de outubro de 2011

Dia (in) Util



Foto e Texto por Dudu Guedes

“Quantos dias uteis tem este mes ?" Perguntou agitado o executivo com rosto abatido pelas horas mal dormidas. "Apenas 8 dias", respondeu seu sabio assistente. O dialogo eh ficticio, mas o pensamento eh bem real. O "genio" que batizou de dia util o periodo de segunda a sexta certamente so trabalhava nos finais de semana.

Eh comum ouvirmos reclamacoes da escassez de tempo durante a semana. Vivemos em torno do trabalho, mal temos tempo para almocar ou ir ao banheiro, negligenciamos a saude, esquecemos da familia; e no intervalo da noite para o dia fechamos os olhos como uma cortina que escurece o quarto mas nao silencia o barulho dos carros. Pergunto: dia util para quem cara-palida ?

Deveriamos propor uma revisao nos conceitos ou quem sabe organizar uma reclamacao publica junto ao Procon. Dia util seria aquele onde almoco teria sabor de comida caseira, com direito a assistir video-show na sobremesa e descansar na rede com vista pro mar.

Dia util eh quando trocamos o sapato apertado por um generoso par de chinelos, eh quando acordamos junto com o canto dos passarinhos, onde o almoco nao tem hora para acabar, quando conseguimos contemplar as nuvens e sentir o cheiro de chuva sem medo de molhar a roupa.

Que possamos ter orgulho de pintar as paginas que a vida oferece. Que nossos dias uteis possam ser verdadeiramente mais bem aproveitados com menos cinza e mais tons de azul.

Feliz por Nada



Foto e Texto por Dudu Guedes

No cafe da manha do hotel, uma pequena menina de uns 4 anos me fuzilou com um sorriso. Eu estava introspectivo, um pouco triste, e la veio ela com aquela varinha magica.

O sorriso de uma crianca deveria ter mencao no guiness e direito a participacao num show do cirque de soleil. Tao simples e nao incomum, seu poder eh vigoroso capaz de cessar guerras entre paises inimigos. Uma verdadeira arma do bem capaz de aquecer o mais gelado dos coracoes. Agradeci em silencio e retribui com um sorriso.

O instante durou mais do que aqueles segundos. Existem momentos que grudam no nosso pensamento e se perpetuam sem que percebamos. Como pode um simples gesto arrancar tanta emocao ? O sorriso daquela crianca era como a materializacao da sua alegria genuina, na forma mais pura e intensa.

Eh como fazer um suco da fruta extraida direto do pe da manga, sem agrotoxico ou corante. Uma overdose daquilo que as vezes esquecemos que eh possivel. Nao dependemos de um contra-cheque gordo nem de saude para estarmos bem ou felizes.

Admiro pessoas espontaneas e alegres, daquelas que nao precisam de um motivo especifico para sorrir. Cultivar a alegria deveria ser um habito tao importante quanto dormir ou escovar os dentes. Mas se dente mal cuidado provoca carie, alegria sonegada causa estragos ainda maiores. E assume o comando sem dar aviso previo.

A alegria de uma crianca nao precisa de motivos, simplesmente existe. Vem de dentro para fora, sem vicios ou armadilhas comuns que nos mesmo criamos no calabouco das nossas emocoes.

Feliz por Nada. Esse era o titulo do livro da Martha Medeiros que coincidentemente tive a sorte de encontrar na livraria antes do meu embarque. Se eu fosse o editor, aquele sorriso seria sem duvida a capa.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Transpiracao ou Inspiracao ?



Texto por Dudu Guedes.

Se no passado viviamos a sociedade do consumo, hoje instalamos a cultura da pressa. Nao fazer nada eh sinonimo de desperdicio de tempo. Um absurdo refugavel para os moldes atuais. Valorizamos mesas cheias de papeis e pessoas que andam em passos largos grudadas ao celular. Aonde eh a linha de chegada ? Sinal de produtividade, dizem alguns. Prazos apertados que as vezes nao levam a lugar nenhum. Correr eh como exibir um trofeu ao mundo. Puro efeito placebo. Nao serve de nada.

Sinceramente, passei a admirar ainda mais pessoas calmas. Voz mansa, gestos ponderados. Sinal de equilibrio no ecossistema interior. Claro, temos compromissos apertados e pouco tempo disponivel. Mas planejar, priorizar e principalmente descartar conversas inuteis sao habilidades de poucos. Para mim, calma nao eh o contrario de eficiencia mas sinonimo de sabedoria. A tartaruga pode nao ser a mais rapida, mas com passos curtos e paciencia certamente chegara mais longe. Dizem que elas podem viver 300 anos, mas pergunte a idade do mais velho dos leoes.

Ora, nos educaram como formigas, mas por que nao podemos ser cigarras trabalhadoras ? Depois, fingimos nao saber a origem de atendimentos ruins. Nao se trata de qualificacao profissional, mas de simples doacao. Trabalho e prazer estao separados como se fossem os dois lados de uma mesma moeda. Cara ou coroa ? Nem um, nem outro. Esta na hora de reescrever algumas fabulas infantis e ensinar a nossas criancas que podemos sorrir ou ate cantar no trabalho. Alias, deveriamos substituir o curso de oratoria por aulas de musica. Certamente teriamos um mundo mais alegre e melhor para se viver.

Creio que existem atualmente muitos exemplos de lideres que transpiram, mas poucos sao aqueles que inspiram. E nao estou me restringindo a um ambiente academico ou corporativo, mas a um conceito bem mais amplo. Me refiro aos lideres do dia-a-dia, dentro dos nossos lares, predios ou ruas. Pessoas que ao inves de ensinar, escolhem o potencial vocal como motor de suas conviccoes. Vira uma sinfonia desajustada e sem ritmo. Cade os verdadeiros maestros para organizarem a musica ?

Como ensinam no mergulho: pare, respire, pense e aja. Uma boa regra para usar tambem em terra firme. Hoje em dia, somos cobrados para agir, mas parar, respirar e pensar sao verbos em extincao. "Estude mais !", ordena o pai quando o filho tira nota baixa no colegio. "Nao se atrase", diz o marido para a esposa. Somos imperativos e pouco cooperativos. "Seja focado em resultado", esbraveja o diretor. Errado. Deveriamos ser focados nas alavancas que produzem o resultado. Mais fogo e menos fumaca. De que adianta um tecnico de futebol que grita na beira no campo, mas nunca organiza o time ?

Certa vez, li uma fabula onde o pai e filho caminhavam juntos, quando o primeiro perguntou: "sabe que barulho eh este ?". O filho respondeu: "Sim, de uma charrete em movimento". O pai retrucou: "mas nao eh de uma charrete qualquer. Eh de uma charrete vazia em alta velocidade. Quanto mais vazia e mais rapida, mais barulho ela faz".

Assim, como as charretes, sao os seres humanos. Desconfie do conteudo daqueles que produzem muito barulho. Sejamos tartarugas e vivamos 300 anos. Pare, respire e pense.

O Protetor de Iemanja



Perdido no mar esta

De onde avistamos nao sei se eh possivel chegar
Boia numa sintonia plena e sereno como se soubesse flutuar

Guardiao das ressacas e das calmarias, nunca foge do seu lugar
Guia e bussola dos navegantes em qualquer mar

La esta ele, ao fundo sem saber nadar
Como se o mar pudesse lhe tocar

De dia ou de noite, nao sabemos se eh o inicio ou fim
Mas de longe parecem se beijar

Horizonte, o guardiao do mar

sábado, 22 de outubro de 2011

Espelho da Vida, por Gandhi

"O caminho para a felicidade não é reto.

Existem curvas chamadas EQUÍVOCOS,

existem semáforos chamados AMIGOS,

luzes de cautela chamadas FAMÍLIA,

e tudo se consegue se tens: um estepe chamado DECISÃO,

um motor poderoso chamado AMOR,

um bom seguro chamado Fé,

combustível abundante chamado PACIÊNCIA,

mas acima de tudo um motorista habilidoso chamado DEUS!

Perguntaram a Mahatma Gandhi quais são os fatores que destroem os seres humanos. Ele respondeu:

A Política, sem princípios;
o Prazer, sem compromisso;
a Riqueza, sem trabalho;
a Sabedoria, sem caráter;
os negócios, sem moral;
a Ciência, sem humanidade;
a Oração, sem caridade.

A vida me ensinou que as pessoas são amigáveis, se eu sou amável,
que as pessoas são tristes, se estou triste,
que todos me querem, se eu os quero,
que todos são ruins, se eu os odeio,
que há rostos sorridentes, se eu lhes sorrio,
que há faces amargas, se eu sou amargo,
que o mundo está feliz, se eu estou feliz,
que as pessoas ficam com raiva quando eu estou com raiva,
que as pessoas são gratas, se eu sou grato.

A vida é como um espelho: se você sorri para o espelho, ele sorri de volta.
A atitude que eu tome perante a vida é a mesma que a vida vai tomar perante mim".

"Quem quer ser amado, ame"

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Job Grade Familiar



Texto by Dudu Guedes

Impressionante como desde muito cedo somos programados para valorizar determinados status sociais. Fulano eh o artilheiro do time, o camisa 10. Cicrano foi promovido a diretor geral de Merge & Acquisition. Quanto maior o cargo e quanto mais palavras em ingles, parece que mais importante e digna se torna a pessoa. Como uma pocao magica capaz de produzir verdadeiros herois. Ah, siglas e abreviaturas tambem servem para aumentar o coeficiente de adoracao na escala social. Certa vez, ouvi numa conversa: "nao pega bem sair do trabalho no horario ... eu espero meia hora para desligar o computador e ir embora". Que verdadeira inversao de valores. No caminho de casa, imaginei por um instante um mundo diferente e resolvi compartilhar.

Imagine uma familia como uma empresa ... No dia do casamento, o padre ou juiz entrega aos noivos uma carteira de trabalho. Recebe um carimbo de "Marido Assistente I" e "Esposa Assistente I". Este eh o job grade inicial para todos os recem-casados. A madrinha comenta: "nao liga nao, o inicio eh dificil. Meu marido levou 4 anos para virar Gerente II de Marido. Hoje ele ate pendura a toalha no varal". Outro padrinho retruca: "minha mulher ainda esta como Esposa Analista Senior, mas estou prometendo a ela um upgrade no proximo ano. So faltam mais 2 rodadas do brasileirao".

A promocao seria um criterio mutuo, decidido em conjunto pelo casal. Cada cargo teria um tempo minimo e maximo esperado, mas poderia ser antecipado conforme cumprimento de algumas etapas. Seria um encontro periodico, como nos alcolicos anonimos, com direito a troca de ficha e cerimonia. Os padrinhos, familiares e amigos mais proximos estariam juntos, com direito a bolo e troca de presentes. Algumas atividades de etiqueta-basica como "abaixar a tampa da privada" para os maridos ou "retirar o cabelo do ralo" para as mulheres somariam 2 pontos para a promocao.

Casos mais graves de casais que excedessem o prazo maximo indicado no cargo atual teriam acompanhamento automatico com direito a terapia em casal e supervisao do Padre. No limite, seriam exonerados do cargo e iriam para uma black-list de consulta publica. Casais divorciados teriam todo seu historico gravado, o que poderia facilitar ou dificultar uma recolocacao no mercado. "Ih, esse ai ficou 5 anos como analista junior, coitadinho". Alguns mais rodados ja estariam na segunda ou terceira "carteira de trabalho" diante de tanto carimbo de promocao.

Os casos mais extraordinarios de ascensao relampago seriam reconhecidos pela midia. Revistas como Forbes, Isto eh ou Voce SA, teriam manchetes como "Joao da Silva eh o mais jovem Diretor Geral Marido, com apenas 2 anos de casado" ou "Marinalda ensina as dicas de como se tornar uma Analista Senior de Esposa em 8 meses". Programas de TV ensinariam o "Passo-a-Passo para encontrar o Marido Gerente" ou "Bares mais frequentados pelas Esposas Assistentes Divorciadas". Faculdades ou cursos de extensao serviriam como um alavancador do cargo. Quem tivesse certificado internacional ganharia a promocao de 1 ou 2 anos.

Se o casal quisesse ter filhos, precisaria ter pelo menos o marido ou esposa como gerente senior da relacao. Os hospitais seriam rigorosos na fiscalizacao da carteira de trabalho. Namorados com filhos antes do casamento teriam que fazer cursos de extensao de no minimo 9 meses com prova classificatoria obrigatoria.

As conversas num bar seriam: "estou muito feliz, fui promovido 3 vezes pela minha esposa no ultimo ano, acho que ja poderei ser pai". O mundo giraria menos em funcao do dinheiro e mais em funcao das relacoes. Depois de um tempo, com o nascimento do primeiro filho, as esposas virariam "Mae Assistente I" e os maridos "Pai Assistente I". Se fossem gemeos, automaticamente, subiriam 1 nivel para "Pai ou Mae Assistente II". Trigemeos subiriam 2 niveis e assim por diante. Enquanto alguns filhos diriam no colegio "meu pai eh diretor geral, jantamos juntos todos os dias"; outros comentariam "meu pai sai do trabalho muito tarde, ainda eh analista junior de pai". Para ter o segundo filho, no minimo o marido ou a esposa ja precisariam ser gerente geral de mae ou pai. Do contrario, o obstetra responsavel pelo parto seria exonerado da sua profissao.

Avos ja entrariam na funcao como gerente-geral. Teriam apenas 2 niveis sem tempo-minimo de cargo. Existiria um linked-in pessoal, com as ultimas promocoes e testemunhais de ex-namorada(o)s, esposas ou padrinhos, netos e filhos. Videos e fotos de cada promocao poderiam ser incluidos. Seria mais facil fazermos um balanco da nossa vida pessoal.

Obrigado por voce que compartilhou a leitura ate aqui. Na classificacao da vida, voce ja eh meu "Amigo Diretor Geral". Que esta historia sirva como reflexao para o que existe de mais importante em nossas vidas. Que valorizemos mais o ser do que o ter. Que a aparencia nao seja mais importante do que o conteudo. Que possamos cuidar melhor das nossas familias antes que seja tarde e voce seja incluido na black-lista de ex-pai ou ex-marido. Amem.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Bambu Chines

video

O grande sábio Zaguzi contemplava do alto de uma montanha um belíssimo pôr-do-sol quando certo discípulo, triste, aproximou-se e confessou.

– Durante anos busquei vencer minhas falhas. Mas, infelizmente, sinto que progredi muito pouco. Vejo que continuo injusto, egoísta, intolerante, orgulhoso e invejoso.

– Quando o discípulo terminou suas confissões, o sábio e ele desceram a montanha. Ao chegarem ao pé da montanha, o sábio pediu que o discípulo fosse com ele até sua pequena propriedade, próxima dali. O discípulo não entendeu nada, mas aceitou o pedido.

– Há três anos, com imenso esforço e paciência, plantei sementes de bambu chinês aqui – disse o sábio. Mas até hoje, como você pode ver, nasceram apenas pequeninos brotos.

– Qual o significado disso para minha vida? – perguntou o discípulo, confuso.

– É simples. Durante cinco anos estes bambus crescem debaixo da terra, sem que sejam percebidos. Mas, enquanto crescem, curiosamente, suas raízes se desenvolvem de maneira robusta. Só então, os ramos brotam, começam a crescerem e podem atingir até vinte cinco metros de altura. O mesmo acontece com nossa vida espiritual. Se crescemos da noite para o dia, além de nossa capacidade, podemos passar por problemas inesperados porque nossas raízes, a fé, esperança e o amor, não terão como se sustentar. Quando alguém apenas busca viver os benefícios da vida espiritual, sem pensar em possíveis sacrifícios, pode crescer sem raízes profundas o bastante para manter esse crescimento de pé.

Muitas coisas na vida pessoal e profissional são iguais ao bambu chinês. Você trabalha, investe tempo, esforço, faz tudo o que pode para nutrir seu crescimento, e às vezes não vê nada por semanas, meses ou anos. Mas se tiver paciência para continuar trabalhando, persistindo e nutrindo, o seu 5.º ano chegará…, e com ele virão um crescimento e mudanças que você jamais esperava…

O bambu chinês nos ensina que não devemos facilmente desistir de nossos projetos e de nossos sonhos… que envolvem mudanças de comportamento, de pensamento, de cultura e de sensibilização, devemos sempre lembrar do bambu chinês para não desistirmos facilmente diante das dificuldades que surgirão. Procure cultivar sempre dois bons hábitos em sua vida: a Persistência e a Paciência, pois você merece alcançar todos os seus sonhos!!!

“É preciso muita fibra para chegar às alturas e, ao mesmo tempo, muita flexibilidade para se curvar ao chão e não se deixar quebrar.”

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O homem que sabia demais



Ja foi tema de filme e tambem enredo de musica. O homem que sabia demais na verdade nao era um homem, mas era tambem mulher, menino ou menina. Nao era um so, mas era plural. Uma comunidade, populacao ou talvez uma nacao inteira. Temos muitos homens que sabiam demais, mas que na verdade nao sabem de nada.

Cruel a realidade daqueles que julgam os fatos como uma verdade inquestionavel e absoluta. Nao existe. Nem nas novelas ou filmes. Tudo eh relativo. Ate um carro em movimento pode estar parado, segundo as leis da fisica. Depende dos olhos do observador. E acrescentando: depende principalmente da sensibilidade de quem olha.

Eh preciso relativizarmos os fatos. Na pousada, ja de noite, me dirijo ate o recepcionista e lhe peco ajuda para conseguir um taxi no dia seguinte. Que horas eh seu voo ? ele pergunta. As 15h, respondo. Ele continua em seu estado de quase meditacao e me diz: nao ve que estou ocupado ? Amanha vemos isso, ele finaliza. Saio um pouco perplexo, quase sem acreditar no dialogo.

Minha rasa consciencia ocidental nao percebeu a grandeza daquele instante. Achamos que nao fazer nada eh desperdicio de tempo. Mas nao fazer nada exige sim disciplina e concentracao. E deveriamos todos cultivar esta pratica. Esvaziar as mentes para o aqui e agora. Certamente, este homem estava mais conectado ao universo do que eu, pensei. Nao ha nada demais com planejamento, mas por que antecipar um problema futuro ? Poucos percebem a forca e duracao de um instante. 1 segundo pode durar 1 hora. Depende.

Assim como o mundo esta cheio de "homens que sabem demais", tambem existem inumeros mestres anonimos. Desses que passam quase despercebidos do nosso lado, numa padaria ou estacao de metro. Pessoas simples capazes de nos ensinar com um simples gesto, palavra ou sorriso.

Em balines, "terima kasih" significa obrigado. Talvez seja a palavra mais falada nas ruas. Indonesios nao economizam um "obrigado". Tem de sobra pelos restaurantes, aeroportos ou ruas. Terima kasih tem a mesma forca que a sua sonoridade. No aviao, a aeromoca com o rosto parcialmente coberto pelas tradicoes de sua cultura, uniu as maos em sinal de prece, olhou fundo e disse: terima kasih. Pude constatar e sentir a forca de uma palavra. Nao era um obrigado qualquer, desses que falamos pelos cantos quase como robos programados pelas regras da boa etiqueta e educacao ocidental. Na indonesia, obrigado eh coisa seria. Terima kasih soa como um mantra capaz de aproximar culturas diferentes e criar um vinculo quase emocional de um breve instante.

Palavras tem vida e podem ter a forca de uma musica. So depende se vem da boca ou do coracao. Terima Kasih. E de maos em prece.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Pilote seus sonhos ...

Para aqueles que perderam a capacidade de sonhar, um voo de apenas 5 minutos.
Sirva sua alma. Bom voo.

video


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Paradoxal





By Dudu Guedes.

Vivemos em um mundo paradoxal. Regras que existem para serem quebradas. Gato preto eh sinal de mau agouro. Passar debaixo da escada nem pensar. Como eh criativa a mente humana na fabricacao de associacoes para o azar. Alias, falar esta palavra tambem nao pode (espero que escrever nao seja igual).

Por outro lado, amuletos da sorte sao raros ou quase impossiveis de se achar. Ver uma estrela cadente caindo por entre as luzes da cidade ou cruzar com um trevo de quatro folhas eh tarefa de outro planeta. Confesso que nao conheco ninguem que tenha realizado esta proeza, fora das generosas telas dos desenhos animados. Fico imaginando o sujeito que inventou isso. O dialogo seria: "escolha uma flor mais complicada ..."; "Serve orquidea ?"; "ah, nao tem que ser algo mais raro pra dar sorte" ... Imagine agora uma escada apoiada na calcada, o que eh melhor: passar embaixo ou invadir a rua e correr o risco de ser atropelado ? E a historia de quebrar um espelho e ter 7 anos de ma-sorte (pensando bem, melhor nao falar a maldita palavra). Para as mocas, o pior eh comer o ultimo chocolate e ficar sem casar ... Fala serio, o que um ultimo chocolate tem a ver com casamento ? Da serie que bloqueia casamentos, tem ainda varrer o pe. Santa loucura !


Ora, se o azar (ops, falei) tem em abundancia, por que a sorte nao pode ser conquistada ao inves de ser premiada como um bilhete de loteria que nunca tem ganhadores e sempre acumula o premio ? Porque nao facilitamos um pouco ? Vamos espalhar por ai que se gato preto eh sinal de mau agouro, canto de passarinho representa sorte. Ja acordariamos com uma mentalizacao positiva. Teriamos um ambiente mais prospero com mais sorrisos e esperanca nas ruas. Talvez. Tudo bem, ja ouvi dizer que ser premiado com coco de pombo eh bom, mas ai tambem ja eh exagero.

Por que a sorte ou felicidade tem de estar associada a cruel estatistica enquanto o azar, ah esse tem de sobra por ai. "Faca um pedido se vir uma estrela caindo", dizem pelos cantos. Por que nao mudamos para uma "folha caindo" ? Contemplariamos muito mais felizardos ... Bons pensamentos e boas vibracoes estao em extincao, apesar de serem gratuito. Mais um paradoxo. Achamos estranho sorrir ou cumprimentar pessoas desconhecidas na rua. Eh coisa de maluco ou paquerador. Estranho eh nao falar, fingir que somos seres individuais desconectados de um todo. Quando o ritmo eh interrompido por um acidente, o cenario muda. Experimente cair de bicicleta. Certamente teremos muitas pessoas para ajudar. Se cair de moto em plena Marginal Pinheiros, a generosidade vai crescer exponencialmente como uma tribo que se reconhece (pobre do automovel desavisado que fizer parte do episodio). Entretanto nao deveria ser assim. Por que esperar a forca do imponderavel para fazer o bem ? Penso que somos muito bons em compartilhar a dor, mas compartilhar genuinamente o bem eh tarefa daqueles mais evoluidos, que deixaram a inveja e a pobreza de espirito de lado.

Certa vez, li um texto que discorria sobre a capacidade do homem de questionar coisas boas. Desconfiamos do que vai bem, mas parece que aceitamos muito bem o que vai mal. Explico. Se temos um bom emprego, uma boa familia ou um bom desempenho no colegio, parece que a todo instante esperamos um raio ruir sob as nossas cabecas. Desconfiamos da paz consistente. Parece que nos ensinaram que nao temos direito a ela. Ora, sim, temos direito. E a paz esta dentro de nos. Tudo bem que a vida eh feita de ciclos, mas por outro lado, nao duvidamos das tempestades. Quando vivemos uma dor, assumimos que o inverno entrara pelo verao. Fechamos logo a cortina para nao olhar para fora. Como se um espirro fosse logo sinal de pneumonia.

Outrora, um jornalista me disse: escrevo tragedia porque vende mais. Cruel e verdadeira a sentenca. Desde criancas, contos infantis plantam a ideia de que existem bruxas e herois. Novelas das 8 e revistas de fofoca perpetuam este conceito. Como se no nascimento recebessemos uma etiqueta de "bom" ou "mau". Como se o ser humano fosse o polo positivo ou negativo de uma pilha. Ora, somos a pilha inteira. E as vezes, realmente da choque. Experimente cruzar duas pessoas nos seus momentos de "polo negativo". Nao existe essa de "mocinho ou bandido" fora das brincadeiras infantis. Somos os dois. As vezes um, as vezes o outro.

Mudemos a perspectiva como se fossemos um helicoptero em pleno voo. As vezes, faz bem olhar de cima. Talvez nao mude a realidade imediata, mas ajusta o foco. E, na duvida, nao cruze as escadas; mas acredite: folhas caindo trazem sorte, especialmente no outono. Se vir uma dessas por ai, faca um pedido, eu garanto. Como dizia na historia, " o essencial eh invisivel aos olhos".

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O silencio que fala



By Dudu Guedes

Na semana passada, surgiram a mesa do almoco comentarios acerca da admiracao de grandes empresarios. Pessoas com uma historia de sucesso de muitor suor, que construiram do nada muita fortuna e respeito. Batalhadores e admiraveis.

Tive que discordar. Nao que eu despreze o valor destas historias. Claro, tem seu merito e devem ser mesmo lembradas, comentadas e reconhecidas. Mostram a capacidade de superacao humana, trazem tambem progresso e prosperidade economica. Mas quase ninguem comenta daqueles que renunciaram a vida material em prol de uma causa maior, seja espiritual ou simples doacao. Lideres espiritualistas estao em extincao no ocidente. Valorizamos os lideres materialistas. Ora, creio que sair "do nada para tudo" eh muito mais facil do que sair do "tudo para o nada por livre e espontanea vontade". O ultimo certamente tem um coeficiente ainda maior de valor, mas nao na nossa cultura ...

Minha admiracao vai para estas pessoas. Que conseguem enxergar ainda em vida as coisas realmente importantes da vida. Que reconhecem a poesia num canto de passarinho. Que escolhem como papel de parede particular do seu dia o sorriso de uma criança. Que trocam o conforto de um banco de couro de um automovel de ultima geracao pelo selim de uma bicicleta. Que escolhem obrigado e por favor como os principais mantras da sua vida. Que olham mais para o coletivo do que para o individual.

Igualmente curiosa eh a repercursao social sobre a capacidade de oratoria destes lideres. Ora, valorizamos grandes oradores. Aqueles que tem o dom de se expressar. E a capacidade de ouvir, aonde fica ? Valorizamos mais a fala do que os ouvidos. Meio batido e antiquado, mas eh verdade a velha maxima dos dois ouvidos para apenas uma boca. Mas como sempre contrariamos a natureza humana: na faculdade, escolhemos o formando orador; cursos de extensao promovem a capacidade da oratoria e por ai vai.

Aprendi que existe muita sabedoria no silencio. Deveriamos criar na sociedade o papel do ouvidor. Numa formatura, teriamos o formando ouvidor com um lugar de destaque ao lado do formando orador. Ele apenas ouviria, mas tambem daria o tom atraves da expressao do seu olhar. Como o baterista, que parece o coadjuvante de uma banda, mas tem o papel fundamental de impor ritmo e velocidade. Se o formado ouvidor levantasse as sobrancelhas, seria hora do orador encerrar o discurso. Teriamos tambem cursos de extensao para tornar-se um bom ouvidor e colocariamos no curriculo na secao de formação complementar. Atendentes de call center ganhariam dobrado se tivessem certificado de conclusao.

O curso se resumiria a intensas aulas de meditacao. O instrutor nao falaria nada, apenas ouviria. Os alunos poderiam perguntar, mas seria em vao. Interprete o silencio, diria o instrutor em pensamento e com uma leve torcida na cabeca. O silencio tambem fala. Quem nunca ouviu o barulho do silencio num ambiente acusticamente neutro ? Pior eh quando nossa mente grita mesmo no silencio absoluto ... As vezes grita mais do que uma torcida em final de fla-flu no maracana. Quem souber onde tem um curso desses, por favor me avise. Confesso que gosto de uma boa prosa e tenho me revelado um bom tagarela. Mas tb exercito na marra a valorizacao do silencio.

Por vezes, tive o privilegio de subir a vista chinesa de bicicleta logo no amanhecer do dia. Parei ao lado da cachoeira e contemplei a visão. De olhos fechados, no inicio ouvi apenas o barulho da agua escorrendo por entre as pedras. Depois, um passarinho pareceu dizer bom dia. O som da cachoeira aumentou gradativamente ate reproduzir o barulho de uma verdadeira tromba d’agua. Abri os olhos. A cachoeira permanecia ali, a mente eh que silenciara. E quando isso acontece, nos conectamos com o divino. Escutamos mais o que esta a nossa volta. Nos permitimos viver o instante presente. Fechei os olhos novamente e uma forte ventania soprou. Reparei que não era um dia qualquer. Vento rajado, quente. Era sopro do vento norte, pre-frontal. Vento que antecede uma frente fria, no hemisfério sul. Daqueles ventos que fazem as portas bater repentinamente. Assusta, mas traz mudança. E que com esta mudança seja possível ouvirmos mais uns aos outros. E enfim, silenciar. Como uma cachoeira. Namaste.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sabe la



Musica by Dudu Guedes

C G
Vai dizer que o amor
D
Nasceu daquela flor
C
Bem devagarinho
G
Nem reparei o ninho
D
Que o beija-flor deixou


G
Sabe la
Am
Baloes sao feitos pra voar
Em
E colorir os ceus
B7
Mesmo que seja pra falar
Em
Que ficou tudo no lugar


C G
Sei que posso ser como um menino
Am
Que tem la os seus espinhos
G
Mas que tambem sabe voar

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O tempo nao para ...



Texto by Dudu Guedes.

Hoje olhei para o Cristo e lhe pedi uma resposta. Nao encontrei. Perguntei de novo, mas ele permaneceu estatico no alto do morro. Nem uma piscadela. Bracos abertos, imovel sobre a baia de guanabara e o jardim botanico. Nao dormia, mas tambem nao falava. Olhei de relance como se fosse possivel notar um leve movimento entre um instante e um segundo. Mas nada.

Continuei a jornada e esqueci dele. Sigo adiante como se um piloto automatico interno me guiasse ate em casa. Restaurantes cheios, finalmente viro a direita na minha rua. Um caminhao enguicado esperava por um reboque, contrastando com a do paz do bairro. Resolvi voltar na contramao e pegar outra rua. Ligo o radio para distrair um pouco. Escuto logo um "eu sou um cara cansado de correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada, eu sou mais um cara". Salve Cazuza. "Mas se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados, porque o tempo não pára".

Desco do carro ja na frente de casa. Uma mae passeia com o filho. Ele me sorri. Seu sorriso acompanha meu olhar, ou seria meu olhar que acompanha seu sorriso. Nao importa. Finalmente entendi. Olho para o Cristo e agradeco. Se um dia acordar triste, experimente roubar o sorriso de uma crianca. Criancas sao a materializacao dos anjos na terra e musicas sao harpas conduzindo suas melodias. As vezes, as respostas que buscamos nao vem verbalizadas. Percebi o presente que recebi do universo. Porque o tempo, o tempo nao para.

"Nosso mais forte elo com a vida é o franco e radiante sorriso de uma criança".

Melodia em Construcao




Musica By Dudu Guedes

Cade aquela crianca ?
Ficou presa na lembranca ou se perdeu no tempo
Sem lenco, nem documento, so o relogio nao viu passar

Chorou porque nao soube amar
Da poesia tentou espalhar alegria
E dos seus versos, o amor inundar

Assim nasceu a sereia, seus cachos como uma teia
Morreu sem saber nadar

Nao importa para onde va
Sera sempre um poeta no mar

Girassois do Mar



Foto e Musica by Dudu Guedes

Introducao G ... C ...

Foi assim
Que o sol escolheu voce
Entre tantos girassois, que o jardineiro nao viu
Presa nos meus anzois, so um pescador sorriu
Esqueceu de me avisar, que no mar existe o amar
So nao existe o amanha

Deitada nos meus lencois, te reguei bem devagar
Pra nascer uma cancao, te fazer o meu refrao
Nas cordas do violao, andar juntos no mesmo tom
E celebrar um novo dia, com a mesma harmonia

Sem sabe pra onde vamos, mas cientes do que somos
Voar pelo teu ceu, do teu sorriso fazer um veu
Onde possa abrigar o porto-seguro do nosso amar

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O tempo eh uma raposa



Texto e foto by Dudu Guedes.

O tempo eh uma raposa. Lembro de ter ouvido esta frase em algum filme. Verdade. O tempo eh como um relogio que nao carregamos no pulso. Aprendemos que pode ser medido em segundos, minutos, horas, dias, meses ou anos. Mas esquecem de nos ensinar o mais importante: o tempo eh relativo e voa como uma raposa.

O cinema ja reproduziu por vezes o desejo humano de construir uma maquina do tempo. Fazer como o Macfly e voltar no passado ou acelerar para o futuro. Mas feliz ou infelizmente, isto so eh realmente possivel na ficcao. O espaco e a materia sao apenas um so. Melhor assim. Evitamos a capacidade humana de produzir estragos ao brincar de ser Deus. A unica certeza que temos eh de que morremos um pouco a cada dia desde o instante em que chegamos ao mundo. Ironia pensar que o nascimento tambem eh morte ou que o comeco tb eh o fim. Como uma ampuleta que pode girar mais rapido ou devagar e so depende do que vc coloca dentro. Se colocar agua, ela escorre pelas suas maos, impossivel segurar. Se colocar areia, grudara por entre os dedos. Pois bem. Coloque areia, agua e plante uma flor. E da flor, nascera o amor.

O amor desacelera o tempo, faz o passo ficar devagar e encurta distancias. E nao falo apenas do amor de homem e mulher. Mas o amor de um filho pelo seu pai e sua mae, do amor de irmaos, de amigos e por que nao de pessoas desconhecidas. Um conceito muito mais amplo de apreciar a beleza do mundo mesmo no caotico movimento das coisas. Um dia pode ter a duracao de um ano ou um ano pode ter a duracao de um dia. Depende das nossas escolhas e da nossa perspectiva.

Recentemente tive contato com a ONG Sonhar Acordado que realiza um trabalho muito especial. Eles se propoem a dificil tarefa de levar alegria e esperanca a criancas de baixa renda com doencas cronico-degenerativas ou em fase terminal. Cada voluntario tem a missao de cuidar de uma crianca, descobrindo e realizando o seu sonho junto a sua familia. Sem duvida, aprendemos que a doacao eh como um presente divino onde nos conectamos com algo maior.

Percebemos que o amar vem antes do amor. O verbo vem antes do substantivo. O sentimento amor eh consequencia da acao de amar. Ninguem diz: o meu amor eh seu, mas sim eu te amo. Pura acao traduzida em palavras. Se a reflexao fizer sentido, deveriamos abolir os substantivos abstratos do dicionario. O nome ja traz implicito a ilusao que criamos. Um substantivo abstrato nao existe por definicao, em especial quando se trata de emocoes. O que existe eh a capacidade ou atitude de realizar alguma coisa. E nem mesmo a intencao faz sentido neste caso ...

Experimentemos os olhares de crianca. Lembro do meu susto ao visitar o colegio em que estudei. O corredor parecia espremido, a escada tinha diminuido e no patio ja nao cabia mais uma partida de futebol. Pura ilusao de optica. Me decepcionei comigo mesmo e constatei que os olhos do observador ja nao tinham a dimensao de uma crianca, mas de um adulto. Esfreguei o rosto novamente com as maos. Novamente. E de novo. Enxergava apenas o concreto frio de uma construcao. De repende ouvi o sinal tocando e enfim a nostalgia pareceu conduzir os pensamentos. Criancas corriam enquanto outras estudavam embaixo da amendoeira centenaria. O cheiro de queijo-quente continuava igual ... Pronto. Tinha ajustado novamente o meu relogio. Nada contra um torneio de natacao, mas prefiro deixar para os atletas a paranoia de uma corrida contra o tempo. Um milesimo de segundo que pode definir o sucesso ou fracasso de uma vida. Duro nao ? Depois mais 4 anos de trabalho para a proxima olimpiada. Como pode, ao mesmo tempo que se valoriza a fracao de segundo, as vitorias demoram 4 ou mais anos ... Uma das muitas loucuras frutos das contraditorias invencoes humanas, na minha opiniao.

Prefiro caminhar devagar como dizia Amir Sater. Compreender a marcha e ir tocando em frente. Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs. Verdade absoluta do olhar de um poeta. Quem nunca saiu apressado de casa e engoliu o cafe ? Certamente cumpriu a pontualidade de seu compromisso, mas esqueceu de saborear mais um instante. Nao sentiu o gosto do cafe.

Tudo bem, entendo que nao podemos viver como hippies e ignorar nossos compromissos sociais. Mas tambem nao podemos viver como engravatados de uma peca de teatro que nunca fecha as cortinas. De um intervalo para voce mesmo e se permita assistir tambem o proprio enredo. E se necessario, reescreva a rima. Uma musica nao se esgota no primeiro refrao, mas nasce de uma ideia que precisa ser aperfeicoada. A perfeicao vem do aprendizado e o aprendizado se conquista com erros e acertos inerentes a condicao humana. Faz parte.

So podemos ter a ideia da dimensao de um acontecimento depois de enxergar o todo. Assim como na historia, que so pode ser contada depois de anos e anos. Hoje sabemos o efeito que os colonizadores portugueses tiveram sobre nossa cultura, mas certamente os indios nao faziam a menor ideia quando receberam os primeiros espelhos e especiarias. Como dizem na India, que seja possivel silenciar a mente e o coracao. Trazer a nossa consciencia para o presente e conectar com o aqui e agora. E finalmente viver. Viver cada dia e fazer sempre o bem. So assim dormiremos em paz. Quem sabe algum dia.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Risca de Giz



Texto by Dudu Guedes

A executiva saiu de casa apressada. Tinha uma reuniao decisiva com o board da empresa. Nao poderia atrasar num dia tao importante. Ordenou a baba que levasse seu filho a creche. Colocou um blazer risca-de-giz que so usava em situacoes extraordinarias. Aquela era sua chance de sentenciar a promocao que almejava. Entrou num taxi e rumou ate a boulevard mais proxima. Ignorou a fila e entrou no elevador cega pela seu compromisso. Seu sonho era trabalhar no ultimo andar do predio. Quanto mais alto o andar, mais importante o cargo, pensou. Apertou o vigesimo, orgulhosa de si mesmo. Olhou pelo espelho para conferir os ultimos ajustes no visual. Queria impressionar, mas tomou um susto. Na pressa de sair de casa, esqueceu de pentear o cabelo. Esqueceu de escovar os dentes e esqueceu de tomar banho. Os olhos ainda remelentos revelaram a sua identidade e despiram a fantasia que tentava reproduzir. As pessoas ao redor dela nao abriram a boca, mas era nitido o riso no olhar. O desespero tomou conta de Helena. Corta. Cena 2.

Helena acorda assustada. Confere o relogio. 6:30 da manha, 1 hora antes do despertador tocar. Engracado este nome, se fosse bom nao se chamaria despertador e sim despertalivio ... Helena nao consegue mais dormir. Nao quer que o pesadelo se torne realidade. Prefere ficar acordada e repassar a apresentacao. Mal sabe que o pesadelo ja tinha acontecido. A tal "maldicao da prece atendida", temos que tomar cuidado com nossos pedidos. Desejava um objetivo tao cegamente que esquecera de enxergar as renuncias que cometera. Prepara uma xicara de cafe, e le superficialmente a primeira pagina do New York Times. Apesar de morar no Brasil, ela queria impressionar. Passa pela secao de economia e tenta memorizar o fechamento da bolsa de valores do dia anterior. Maria traz o cafe quente. Derruba no terno risca de giz de Dona Helena. Ela grita e acorda seu filho. Pedro, de apenas 3 anos, aparece na porta da sala chorando assustado. Histerica, Helena nao para de reclamar. Corta. Cena 3.

Dona Helena abraca Pedro. Ela nao sabe ao certo quando passou a ser a Dona Helena e quando deixou de ser a mae do Pedro. Mas parecia um tempo longinquo. Ja nao lia mais historias em quadrinho para o filho. Sua obsessao pela promocao colocaram-na numa jaula dos seus tortos pensamentos. Troca o terno risca de giz. Corta. Cena 4.

Helena sai de casa. Entra no taxi rumo a boulevard mais proxima. Passa apressada pela fila do elevador e aperta o vigesimo andar, orgulhosa de si mesmo. Confere o visual e toma um susto. Cabelos despenteados, olhos remelentos. Dessa vez esquecera realmente de tomar banho. E ainda estava sem o terno risca de giz. Nao era um sonho. Era um pesadelo em vida real. Decidiu descer e apertou o primeiro andar. O elevador parece percorrer uma torre do Empire States. Finalmente para e abre a porta. O CEO entra, cumprimenta Helena e diz: "bom dia, estamos atrasados". Ela nao tinha mais escolha. Permanece no elevador. Thomas, um ingles metodico, observa fixamente Helena e pergunta: novo corte de cabelo ? Helena congela. O elevador para no vigesimo andar. Os dois saem rumo a sala da reuniao. Corta. Cena 5.

Helena entra na sala de reuniao meio sem graca. Olha em volta e nao acredita. Tudo parece meio fora de lugar. A sala esta meio baguncada. Algumas pessoas de meia, outras de pijama e todos com um visual de recem-acordados. Ela parece nao crer no que ve. Faz um esforco e tenta acordar. Nao consegue. Ate os mais serios passam por ela com o cabelo desajeitado, tipico de uma noite mal-dormida. Vira para o lado e avista Patricia. E descobre, para seu espanto, que a mais barbie da empresa nao tinha cabelo liso como aparentava. Helena solta um riso contido que logo vira uma estrondosa gargalhada. Olhos esbugalhados, camisas amassadas, o dia parecia estar do avesso. Mas ela nao era a unica naquele vexame coletivo, pensou. Ricardo chega para acalmar. Helena, vamos conversar - ele diz. Preciso explicar o que esta acontecendo, emenda ele. Corta, cena 6.

Helena acompanha Ricardo ate outra sala mais reservada. Sentam numa mesa. Ela parece ansiosa para ouvir. Tudo comecou hoje as 07 da manha com a chegada do nosso primeiro colaborador, diz Ricardo. No inicio, todos parecem confusos e assustados. Mas percebemos que trata-se de um surto coletivo. Podemos definir surto como a ocorrencia de cinco ou mais casos numa area geografica definida de uma reproducao de comportamentos comuns ... Parece que isto esta acontecendo hoje em todo o planeta. Recebemos relatos de casos semelhantes em Hong-Kong, Cingapura, Nova York e Portugal. Ricardo da um breve suspiro e diz: calma Helena, vai passar. Corta, cena 7.

Helena, ja mais calma, decide passear pela empresa e desfrutar daquele momento. Por alguns instantes, parece enxergar beleza onde nunca vira outrora. Lembra de seu filho Pedro e resolve ir para casa. Anda devagar pelas ruas e parece descobrir uma nova cidade em caminhos tao habituais. Parece mais integrada e conectada com o universo. Corta, cena 8.

O despertador toca. 10h da manha. Helena acorda assustada. Nao entende direito o que aconteceu. Perderia a tao esperada reuniao. Anda pela casa ainda atonita e encontra Pedro brincando no tapete da sala. Abre as cortinas e ve um bloco de carnaval passando bem embaixo da sua janela. Pessoas com as mais diferentes fantasias. Maria se aproxima, lhe entrega o terno risca de giz e diz: a senhora esta atrasada, dona Helena. Claro, ela responde. Rapidamente veste o terno e decide levar o Pedro. Desce apressada, pega o Pedro no colo e se mistura alegre com sua fantasia no meio da multidao. As pessoas riem. O celular vibra. Era uma mensagem do Ricardo: "vc nao vem ? a reuniao ja comecou". Helena responde: "calma Ricardo, vai passar".

Pausa para a reflexao ...

Um dia me explicaram que o significado das gravatas era esconder os botoes da camisa. Esconder pra que cara-palida ? Fica mais elegante, insistiram. Apesar de nao ser um exemplo de foliao no carnaval (confesso que prefiro evitar os tumultos), reconheco que a data tem um papel importante de renovacao. Deixamos de lados as vestes de adulto para exercitar um novo olhar. Mas por que precisamos esperar 1 ano para durante o carnaval vestir outras fantasias ?

Certa vez, um amigo fez o seu trabalho de conclusao da faculdade baseado em um interessante estudo da loucura. Visitou um manicomio e cedeu algumas maquinas fotograficas para os internados com transtorno mental. Pediu que durante 1 semana eles tirassem fotos de temas especificos como paisagem, pessoas, casas e por ai vai. Fez o mesmo com as pessoas consideradas de plena sanidade. O resultado foi bastante perturbador. As pessoas consideradas normais tinham uma preocupacao coletiva e unanime de enquadramento perfeito. As casas estavam sempre centralizadas. No manicomio, as fotos tinham um recorte de poesia. Nao existiam fotos iguais. A foto as vezes enquadrava um sorriso, as vezes um nariz. Concluiu que loucura esta nos olhos de quem ve. Enxergar a realidade igual eh talvez a maior delas. A historia revela quantos queimaram na fogueira da inquisicao para que fosse possivel aprendermos e evoluirmos. Sabios loucos de outrora.

Deveriamos ter um dia onde todos sairiam as ruas como simplesmente acordaram. Parece loucura, mas quem vive no interior sabe do que estou falando. As pessoas se conhecem mais na sua essencia. A intimidade que revela a verdadeira identidade e expulsa a camuflagem de cameloes sociais que tentamos reproduzir. Nada contra a boa educacao e higiene. Claro que um pouco de vaidade tb nao faz mal a ninguem. O problema sao as fantasias que todos os dias tiramos do cabide sem questionar.

Que possamos valorizar as coisas simples, verdadeiras e intensas da vida. Que possamos abrir as portas do manicomio em que vivemos e enxergar o mundo com os olhos de crianca. Que os loucos de hoje possam ser os genios do amanha.

Ps. Agora sinceramente, olhe a primeira e ultima foto abaixo e me responda: quem esta realmente fantasiado ? Contrariando o artista: "que todo carnaval nao tenha seu fim".



segunda-feira, 20 de junho de 2011

O dia da Verdade







Texto by Dudu Guedes

O calendario ocidental eh repleto de feriados. Desde santos ate familiares, tudo eh um pretexto para vender mais. Dia das Maes, Natal, Santo Antonio e por ai vai. Claro que eh sempre bom quebrar a rotina. Eh como fazer uma pausa forcada e abandonar por um segundo a estrada longa para entrar na rua de terra a direita. "Cachoeira adiante", dizia a placa. Vamos refrescar as mentes ocupadas e renovar as energias. Tudo bem, no inverno eh mais dificil, mas feche os olhos e de um passo adiante. Deixe a agua gelada correr pelo corpo ate esquentar a pele.

Saio da cachoeira da minha imaginacao e volto para o escritorio do quarto. Longe dos sonhos e mais perto das obrigacoes mundanas. Armadilhas materiais que criamos no calabouco do nosso inconsciente. Lembro de reunioes, emails. Esqueco. Relembro de novo. Pela janela, o Cristo parece sorrir e dizer: eu sei do que vc ta falando ... Ligo a televisao para esconder um pouco tamanha loucura. Mas o Cristo continua la. Olhando e abencoando do alto do morro. Desta vez, ele parece dizer: calma, chegara o dia da verdade.

Dia da verdade. Se eu fosse prefeito de uma cidade certamente instituiria este feriado. Um feriado onde nao seria possivel mentir, omitir ou esconder. Claro que isso deveria ser uma pratica diaria, mas por vezes alguns papeis nos forcam a ser mais politicos ou comedidos. Lembro da aula de portugues, onde a explicacao de eufemismo era "suaviza expressao chocante". Mais importante do que descrever o eufemismo era a traducao do que seria uma "expressao chocante". A professora explicou que as vezes falar a verdade eh uma "expressao chocante". Ao inves de dizer "vc engordou", deveriamos falar "vc deve estar acima do peso ideal". Estranho nao ? Deve ser mesmo importante esse tal de eufemismo, pensei.

Entendo que nao devemos exagerar na dose, mas ao mesmo tempo eh muito perigoso preservar o mundo de uma realidade tao evidente. Imagino um medico descrevendo a receita num prontuario repleto de eufemismos. Ao inves de anotar "pneumonia", ele escreveria "pulmoes com provavel acumulo de agua comprometendo a eficiencia respiratoria". Facil de entender, nao ?

Percebi que esse tal de eufemismo deixou muitas herancas. Redes sociais como facebook ou orkut quase nao registram o relato de duvidas ou tristezas. Eh como se fossemos seres amaveis, felizes e admiraveis 24 horas por dia e 7 dias na semana. Raros sao os que contam em publico seus medos e problemas. Poucos entendem que demonstrar suas fraquezas tb eh sinal de fortaleza. O contrario tb eh verdadeiro: expor somente as fortalezas demonstra grande inseguranca.

Pois bem, voltemos ao feriado. Por um dia, exercitaremos nossa identidade mais pura e vamos desnudar nossas crencas. Nada de eufemismos. Vamos cultivar a hiperbole e forca dos nossos pensamentos. Admiro pessoas intensas que falam o que pensam assumindo todos os riscos que isto possa implicar. Pertubador as vezes, mas representa autenticidade latente e em extincao. Fomos criados para fugir da criptonita, mas esqueceram de dizer que o superman nao existe sem ela. Ironia da natureza, o antidoto sempre eh feito do proprio veneno.

O dia da verdade seria no meio do ano. La por julho ou agosto. Como forma de forcar o breve suspiro entre um semestre e outro. Dia de reflexao dos nossos objetivos, de acertar o ponteiro dos relogios, ou redefinir metas. Nada de fugir da balanca, de evitar uma dura conversa com o pai ou esconder um amor platonico. Este dia carregaria o pretexto ideal para passar a limpo uma frase mal escrita. Como diz a poeta, aproveite para "recriar o refrao".

Nem so de flores viveria o dia da verdade. Seria um feriado de um dia, mas capaz de trazer desdobramentos de anos e anos. Se usado de maneira errada, teria o efeito de uma bomba atomica: um segundo de queda e anos para reconstruir a historia. Engracado eh celebramos o dia da mentira. Se bem que existe algo verdadeiro em descobrirmos nossa propria mentira. Nada de levar guarda-chuva em dia de sol. Uma reuniao de trabalho em pleno dia da verdade certamente teria um coeficiente de maior tensao. Como um clima de guerra fria que poderia explodir a qualquer momento.

Olhei pela janela. O Cristo continuava de bracos abertos no topo do morro e mais uma vez tinha razao. Enfim, tudo nao passou de uma louca e breve reflexao. Verdade. Mas bem que podia ser mentira.

Obs. Para aqueles q chegaram ate o final do texto, voltem ao inicio e observem as fotos. "O Semeador de Estrelas é uma estátua localizada em Kaunas, Lituânia. Durante o dia passa despercebida. Mas quando a noite chega, a estátua justifica seu nome ... Que possamos sempre ver além daquilo que está diante de nossos olhos, hoje e sempre".

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Sobre Anjos e Olhares



Foto e Texto by Dudu Guedes

As vezes encaramos o mundo com um olhar de seriedade. Como se a vida precisasse ter as respostas de cada passo ou movimento. A verdade eh que nao funciona assim. Sejamos mais leves.

Ontem dediquei algum tempo observando uma folha brincando com o vento. Parecia uma brincadeira descompromissada mas ao mesmo tempo tinham ritmo. Uma cumplicidade que parecia revelar os bracos do vento que conduziam a folha para cima e para baixo, em movimentos circulares perfeitos. As vezes no sentido horario, as vezes no anti-horario. Deveria ser sempre assim. Encararmos a vida com olhares de aprendizes, sempre dispostos a perceber a beleza mesmo no caotico movimento das coisas, pensei.

Liguei o radio e tocou Dia Branco, de Geraldo Azevedo. O sinal fechou. Do lado de fora, uma crianca olhava fixamente atraves do vidro do carro vizinho. Dei um tchau e ela me abencou com a pureza de seu sorriso, meio timido mas muito sincero e iluminado. Criancas sao a materializacao dos anjos na terra, pensei. Temos mais a aprender do que ensinar. Agradeci em silencio a Deus por aqueles presentes logo tao cedo ...

Parei no Bibi para tomar um suco. Tres atendentes, ja conhecidos, vieram atender. Carla, Thomas e Ana. Sempre bem humorados, brinquei q iria trabalhar la. Assim tomaria acai de graca e juntaria mais tickets para trocar por camisas.

Perguntei pela Michelle que estava do outro lado do balcao. Ela disse que estava triste, tinha tirado nota baixa na prova de enfermagem. De fato, seus olhos estavam caidos, e seu rosto escondia um sorriso contido. Como um simples "numero" tem o poder de influenciar o humor, pensei. As vezes transferimos a responsabilidade da nossa felicidade para um emprego, namorada ou estudo.

Lembrei da crianca que sorriu para mim no carro ao lado. Num guardanapo escrevi "nota 10 na escola da vida". Paguei a conta e pedi ao Thomas para entregar a ela. Pelo vidro do carro, acompanhei a entrega do presente. Finalmente ela sorriu.

O Sol das Tempestades





Texto by Dudu Guedes

Recentemente li um texto que contava a historia de um jardineiro diferente. Ele dizia que regar as arvores eram mimos ingenuos. Que criavam plantas viciadas em serem paparicadas. Que ao inves disso, deveriamos deixa-las expostas ao vento gelado. Que a privacao da fartura das aguas faceis faria nascer raizes mais profundas para buscar mais umidade subterranea. Isto eliminaria os galhos mais fracos e deixaria apenas os mais fortes. Bela historia que naturalmente faz pensar.

O ser humano, em especial no ocidente, eh avesso a dor. Associa a dor como forma de sofrimento. Por isso, evita e resiste a certos sentimentos. Mas um sabio ditado diz: deixe vir e deixe ir. Tudo na vida eh assim. Se resistimos, estamos alimentando a fogueira do desejo ou medo inconsciente. Este eh o principio da impermanencia do nosso mundo. Nada nos pertence. Criamos obstaculos ilusorios que so existem na fantasia das nossas mentes. Uma pedra no caminho pode significar uma barreira ou um simples desvio. Depende da perspectiva de quem enxerga.

Nossas oracoes nao deveriam ser contra os problemas, mas sim pela sabedoria em aceita-los, entende-los e supera-los. De preferencia com bom humor. Sejamos mais tolerantes com a realidade que o universo nos expoe. Nao adianta reclamar do peso que se leva nos ombros, afinal tudo tem uma explicacao para ser ou estar. Apenas deveriamos desejar ombros mais largos e fortes. Parece facil, pelo menos na teoria.

Entretanto, ao inves disso, vemos pais que isolam os filhos dos problemas do mundo. Criam uma realidade paralela que mantem o cordao umbilical como uma corrente que aprisiona e nao mais alimenta. Vira uma dependencia emocional que impede as raizes de crescerem fortes e saudaveis.

Nada disso. Sejamos fortes o suficientes para tirar a rodinha da bicicleta. So eh possivel andar sozinho depois de cair. Alguns tombos sao como o passaporte do nosso crescimento. Criam a casca necessaria para a libertacao. Assim como na medicina, a imunidade nao vem sem a companhia da dor, como uma vacina que injeta doses de virus para criar anticorpos necessarios ao corpo.

Segundo o conceito de ying e yang, a contrariedade do mundo nao cria uma forca de isolamento, mas traz implicita a uniao que raros olhos conseguem enxergar. O frio que nao existiria sem o calor e a noite que nao viveria sem o dia.
Assim como a calmaria so existe por causa da tempestade, naturalmente entenderemos que a dor sempre antecede ao alivio. Eh quase impossivel uma arvore trazer frutos fortes e maduros sem ter suas raizes profundas, sinal de condicoes severas que o tempo impos.

No ultimo domingo, uma forte tempestade estacionou no Rio de Janeiro trazendo chuva, frio e ondas de ate 4 metros. A forte agitacao do mar e vento gelado expos tambem a solidao das ruas. A cidade maravilhosa parecia mais o cenario de um filme de faroeste. Com excecao de alguns garis que gentilmente varriam no calcadao a areia trazida pelo vento, as ruas tinham um ar bucolico, mais pra cidade de serra do que praiana.

Casacos, olhares mais serios, passos apressados criavam uma atmosfera de isolamento que trancavam ate um bom dia em nossas gargantas. Tudo para chegar rapido em casa e esquentar as pernas debaixo do edredon. Imaginei como deveria ser dificil morar em Londres. Ou nao.

Em geral os filmes e livros associam as chuvas ao cenario perfeito de uma historia de terror. Como se bandidos monitorassem a previsao no climatempo. Claro que o frio tambem eh um excelente patrocinador do amor e da uniao, promovendo o encontro de uma familia ao redor de um fondue ou abracos apaixonados de um casal de namorados ao redor de um bom vinho. Mas por que tambem nao podemos ver beleza nas tempestades ?

Com excecao das tragedias, uma tempestade tem la suas vantagens. Renovam o fundo do mar, limpam de novo os ceus e criam um novo recorte da realidade. Fazem enxergar e reconhecer lugares ate entao nao explorados, mudam nossos habitos. Nosso dia passa a ter de novo o relogio do tempo.Tudo bem, ficamos presos no aeroporto ou no transito, mas criamos uma pausa forcada em nossas vidas. Eh como se de novo, o grande arquiteto comandasse o ritmo natural das nossas vidas que trocamos por caros e sofisticados relogios nos pulsos. Resgatamos o que hoje so existe nas cidades do interior que eh desfrutar do tempo segundo o relogio do sol ou da lua, ou viver segundo a tabua das mares. Eh quando tiramos do armario capas de chuva ou casacos quase aposentados, nos tornamos mais solidarios em compartilhar caronas ou fazemos aquela visita que a tempos estamos adiando ... Sem falar no espetaculo das ondas batendo nas pedras, sinal de forca e fragilidade, que arrebanha uma plateia de curiosos.

No ultimo domingo, eu e mais 3 amigos decidimos surfar aquela ressaca. Surfar nao. Kitesurfar. Aproveitar o combustivel dos ventos como motor de propulsao das nossas embarcacoes. Acordamos cedo, 9 da manha ja estavamos reunidos de boca aberta com a linha das ondas. O mar estava tao grande que era possivel ver a ondas limpando a ilha a 2 km de distancia da praia. Depois de muitos comentarios, ficamos em silencio como sinal de respeito aquele dia especial.

Velejamos num secret point que nao convem dar muito detalhes, com direito a escambo com uma tribo indigena. Isto mesmo, encontramos indios e cheguei a negociar com o paje um barco a remo para resgatar o amigo a deriva no mar ...

Tudo certo. Por fim veio o sol. O ceu encoberto finalmente lancou alguns raios por volta das 17h30. Pouco antes do anoitecer o astro-rei saiu de seu esconderijo e apareceu para abencoar o final daquele dia. Somente aqueles que se dispusseram a sair de casa e enfrentar o frio tiveram o privilegio de receber o prahna daquela tarde. Ao contrario da historia das formigas operarias, por que nao podemos ser cigarras felizes no inverno ? Toda tempestade sempre esconde por tras de um dia cinza e opaco um sol que quer brilhar. Por isso, antes de enxergar o escuro, mude a perspectiva e certifique-se de que nao esta de olhos fechados.Que os ventos fortes façam nascer raizes mais profundas e que venham mais ressacas para renovar o fundo dos mares. Namaste.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sociedade de Camaleões





Fotos e texto by Dudu Guedes


Sem nos dar conta, existem frases que grudam na nossa historia e acompanham uma vida inteira. Perpetuam por toda a existencia e criam um campo magnetico positivo ou negativo, capaz de repelir ou atrair certos comportamentos. Servem para justificar a escolha de padroes sociais desde uma roupa ate os lugares que frequentamos e amizades que escolhemos.

Por volta dos 15 anos, o colegio pediu q lessemos a Revolucao dos Bichos. Lembro de um trecho do livro que de vez em quando navega pelos meus pensamentos: todos somos iguais, mas uns sao mais iguais do que os outros. Sabedoria atemporal do autor. Daquelas frases que grudam na memoria.

Vivemos uma sociedade de padroes massificados, onde todos somos iguais. Quanto mais iguais, mais reconhecidos e mais bem aceitos. O correto eh beber cerveja, discutir futebol, trocar de carro a cada 2 ou 4 anos, montar um casamento socialmente aprovado, ter um cartao de visitas no trabalho que impressione, falar mal da propria mulher numa roda de amigos e de preferencia ter duas ou tres amantes, sem envolvimento emocional, apenas sexo. Parece uma reproducao da novela das oito, mas em vida real. Ou sera a ficcao copiando a realidade. Seja o que for, para mim eh bem perturbador.

Vivemos como um rebanho de gado bem ordenado, que se move segundo um padrao coletivo inquestionavel. Nao importa se estamos ou nao felizes. Eh o que nos ensinaram como correto e isto ja serve como o alibi perfeito dos nossos atos. Estamos salvos da condenacao.

Comeca com o exemplo dentro de casa. Criancas sao esponjas que absorvem o que veem, escutam e principalmente o que sentem. Mas a nossa responsabilidade de dar o exemplo parece que eh apenas aparente. Para alguns pais, nao importa o que fazem fora de casa, mas somente o que esta ao alcance visual dos filhos. Nao deveria ser assim. Nossa consciencia deveria ser o porta voz do modelo que gostariamos de transmitir. Pais esquecem que os filhos veem alem. Exergam alem das paredes mais espessas do nosso intimo. A pureza de uma crianca tem uma intuicao divina. Crianca sabe distinguir um sorriso de verdade. Conheco pais machistas que condenam o comportamento equivalente do namorado das suas filhas. Ele pode trair a esposa, mas o namorado da sua filha tem que ter a postura de um principe. Estranho nao ? Tem uma sabia frase que diz: ao inves de pensar que mundo deixaremos para nossos filhos, deveriamos nos preocupar em que filhos deixaremos para nosso mundo ... Absoluta verdade.

Ainda engatinhando, nos apresentam o bombardeio feroz das midias de massas. Televisao ruim, musica ruim. Mas se todos gostam deve ser bom. Sentamos todos na sala e comecamos a sessao tortura. Comeca com novela e no fim de semana programas de auditorio de agonizar. Dura um tempo, ate que nos acostumamos. Aos poucos comecamos a achar bom. Mais um pouco, e passamos a acompanhar diariamente. Alguns mais viciados chegam a comprar revistas para antecipar e especular os proximos episodios. Dai, chega o momento que nao basta a ficcao. Temos que sair das telas e acompanhar a vida real destes artistas. Artistas, que artista ? Apresentador de programa de auditorio nao deveria se encaixar nesta designacao. Artista eh quem faz arte. Tem muito mais artista na rua do que na televisao ...

Mesmo nos intervalos, as propagandas parecem uma extensao das novelas (vale a ressalva para os comerciais de cinema que em geral tem uma linguagem muito rica). Comerciais de doriana apresentam o conceito da familia feliz como uma formula magica de felicidade que tentamos reproduzir a vida inteira. Mas vida real eh bem diferente.

As vezes escuto algumas pessoas dizerem: cerveja nao se gosta da primeira vez que se bebe ou maconha nao se curte da primeira vez que se fuma. Sera ? Nunca vi ninguem insistir em comer jilo depois da primeira prova ... Bem, se passarinho estivesse na moda talvez fosse diferente, jilo estaria numa gondola de destaque nos supermercados.

Igualmente engracados, sao os formularios de avaliacao medica que volta e meia nos obrigam a preencher. Sempre que chego no item fumar e beber socialmente, fico sem saber o que responder ... Beber ou fumar todos os dias com os amigos eh diferente de beber sozinho todos os dias ? Talvez para nossa rasa consciencia massificada sim ... Por que nao existe a opcao tomar acai socialmente ? Menos propaganda para a Souza Cruz e mais propaganda pro Bibi. Ou entao, no item atividade fisica, ao inves da opcao sedentario ou moderado, apareceria "pratica atividade fisica socialmente". Se ele joga bola nao tem problema, mas natacao nao eh legal. Devo mesmo estar ficando louco. Respira. Ou quem sabe todos estamos.

Vivemos um surto coletivo que nos distancia da nossa essencia. Eh contrario aos valores humanos mais nobres, do amor e da verdade.

Temos que tomar cuidado com associacoes automaticas e repetitivas que se manifestam inconscientemente nas nossas escolhas. Algumas imagens grudam. Especialmente as falsas verdades criadas no enredo de uma novela com atores boa-pinta e musica romantica. Vale tudo. Eh como se criasse uma atmosfera de altus permanente, onde o status de Brendo e Brenda Walsh nos permita realizar tudo.

Estamos vivendo a era do camaleao. Tudo se transforma. Um dia nao dura mais 24 horas. Viramos seres multi-tarefas e multi-conectados.Estudos indicam que realizamos mais de 72 horas de atividades em 1 dia se considerarmos as coisas que fazemos ao mesmo tempo, como falar ao celular, responder no MSN, navegar no facebook e colocar a torradeira para esquentar. Ate ai, nada mal.

O problema surge quando o exterior passa a comandar o interior. Os padroes externos passam a ser o piloto das emocoes ou escolhas. Nao importa se gostou da trilha, o bacana eh tirar a foto da cachoeira e colocar no facebook. Conheco pessoas que mal conhecem Luiz Gonzaga e se dizem forrozeiras depois da primeira vez que ouviram o Falamansa. Falamansa nada, Falaehserio. Igualmente patetica eh a onda do sertanejo. Nada contra a musica, apenas acho que falta mais personalidade nestas escolhas. Mas isso, eh um capitulo a parte ...

Camaleoes mudam de cor acordo com o ambiente. Nao podem ser distinguidos numa paisagem como forma de protecao do selvagem mundo animal. Nos mudamos de acordo com os discos, festas e tribos. Mas de qual predador estamos fugindo ? De quem estamos nos protegendo ? Creio que a fuga eh interna. Estamos tao individualistas que fugimos da solidao tentando nos camuflar no coletivo ... Mas nao funciona. Quanto mais iguais, menos diferentes. Meio obvio nao ?
Imagine se a natureza ressolvesse copiar ? Acabaria a sinfonia dos bichos. Acabaria o equilibrio do ecossistema social. Sejamos mais autenticos. Sejamos gafanhotos, cigarras e ate camaleoes. Todos juntos, mas cada um na sua. Respira. Namaste.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Cade o bom e velho rock´n roll ?




Texto By Dudu Guedes




Na semana passada, uma amiga do trabalho me perguntou: que musica eh essa ? Era meu celular, tinha acabado de receber uma ligacao e disparou Fake Plastic Trees. Mas eh sua ? Sim, eh minha, eu escolhi, respondi. Radiohead, bela melodia. Mas eh meio triste, ela emendou, tentando disfarcar. Outro amigo balancou a cabeca e concordou. De fato, a musica nao era das mais animadas e resolvi trocar. Disse pra me aguardarem ...



No dia seguinte, cheguei animado. Na primeira chamada, o celular vibrou empolgado e lancou logo um Miquinhos Amestrados na versao brasileira de Surf Safari, classico do Beach Boys. Diz a letra: Cabeludo rastafari, patricinha cherokee. Todas as tribos do surf safari, pegando onda por ai. Nao tem carater de protesto politico como um Cazuza, nem o romance de uma Marisa Monte, muito menos a poesia de um Geraldo Azevedo. Mas eh uma banda alto astral, musica com vida e energia. Anos 80 do mais purinho.



Pra minha surpresa, todos ficaram quietos. Insisti e fiz o celular repetir a musica umas 2 vezes. Um deles comentou: nao conheco, mas acho q ja ouvi em alguma festa ploc ... Eh tenho que assumir, estou ficando velho. Um amigo contemporaneo apareceu pra dar uma forca e comentou: vcs nunca ouviram leo jaime ? Ah, ja vi sim, mas como comentarista de futebol, retrucou o outro em tom de brincadeira.



Ver Miquinhos Amestrados, classico da minha geracao, reduzido a festa ploc eh como assistir a meus pais relembrando Rita Lee na banda Os Mutantes. Sinal de que nao sou mesmo da geracao Y.



Comecamos uma viagem musical saudosista e relembramos Os Titas,Ultraje a Rigor e RPM. Era uma epoca onde a forca estava mais nas pessoas e menos na tecnologia. O tempo se movia devagar. Momento de liberdade politica e revolucao sexual. Lembro de um LP inteiro do Ultraje a Rigor dedicado a quebrar os tabus do sexo. O surf ditava moda e corte de cabelo. Mochila da Company no colegio era sinal de respeito e um codigo de identificacao da tribo. Se a mochila fosse daquelas vermelha e verde, velha e ainda rabiscada, significaria mais rebeldia e mais aceitacao.




Assim como um braco ou perna engessada, que representava um tempo de molho longe da praia, mas tambem a oportunidade dos amigos te presentearem com frases de efeito. Semelhante ao facebook hoje. Mas nesse caso, o scrapbook e testemunhais ficariam no seu braco, tatuados no gesso para sempre. Quase pra sempre. A hora de retira-lo significava alforria pra longe dos banhos com sacos de plasticos, mas era como perder o login e senha da sua pagina, deletar pra sempre as palavras que aquelas pessoas escreveram ... Momento de libertacao e de perda.



A familia se reunia aos domingos para assistir Os Trapalhoes e na sexta, para ver Globo de Ouro. Nao tinha TV a cabo, internet, nem telefone celular. Trabalho de colegio ou faculdade era feito no papel almaco (assim q se escreve ?).



Marcar uma praia com os amigos requeria esforco e planejamento. Tinhamos que ligar para o telefone fixo e marcar um horario e ponto de encontro. Em geral, isso nos forcava a cumprir mais nossos compromissos e maior envolvimento com outras familia. Lembro de quantas vezes pulava da cama e corria para atender o telefone as 6 da manha. Em outras, nao chegava a tempo e ouvia minha mae com voz de sono na outra extensao. Eram meus amigos ligando para minha casa para combinar o surf matinal do fim de semana. Hoje saimos do coletivo para o individual. Tem suas vantagens se soubermos usar.



Um tempo onde o perigoso era aceitar bala de estranho. Hoje o perigo esta dentro de casa. Eh deixar nossos filhos navegando na internet ate tarde. Antes tinhamos horario para voltar da brincadeira das ruas, agora pra desligar o computador. Nao consigo entender as familias que dedicam o almoco inteiro a mexer no celular. Pai, mae e filhos numa sinfonia perfeita alimentando o tamagoshi portatil, sem interagir e olhar nos olhos. Experimente sentar num restaurante no domingo e olhe para os lados. Vera que tem uma legiao de seguidores desta tribo por ai. Isso tudo nem De Volta pro Futuro nem os Jetsons poderiam imaginar ...



Sem duvida, questionemos. Cade o bom e velho rock n roll ? Nas ultimas aparicoes de Barao Vermelho, lembro deles terem aberto o show de outras bandas. Como assim ? Para mim, Barao vermelho ainda eh e sempre sera atracao principal ... Outro dia, assisti no Jo a entrevista de uma banda chamada Restart ... Queria mesmo era dar um restart na minha televisao.



Eh ... Esse deve ser o conflito de toda geracao ... Nosso pais viveram e nossos filhos certamente viverao. O dificil nao eh envelhecer, mas assumir que aquilo que julgamos bom um dia ja se tornou velho demais. Como contam sobre as calcas boca de sino que hoje ficaram ultrapassadas. Saem do armario apenas para fazer aparicoes numa festa brega. Gel no cabelo ja foi moda e hoje em dia so usam os mais engomadinhos de Sao Paulo ...



Mas nao estamos perdidos ou esquecidos. Se ate a Xuxa e Renato Aragao sobreviveram a tudo isto, ainda temos uma esperanca. A unica chance eh nos reinventarmos. Nao adianta brigar contra a tecnologia, mas sim contra o mau uso que fazemos dela. Nao ditamos mais a moda, mas ainda podemos escolher as musicas e criar a trilha das nossas vidas. Vamos colocar um pouco mais de Miquinhos Amestrados no nosso cafe da manha. Mais Marisa Monte nos nossos amores. Mais Barao Vermelho nas amizades. E mais Geraldo Azevedo nos finais de tarde. Que a geracao coca cola nunca saia da moda mesmo bebendo mate leao. Que a geracao de cara pintadas possa ser reconhecida nas ruas mesmo de rosto limpo. Que isso tudo possa mesmo ser o progresso e nao o regresso. Amem.